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A vacina que chega e a doença que espreita

Análise · Dra. Camila Torres Noam Medeiros tem 10 anos e não teme agulhas.

A vacina que chega e a doença que espreita
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Análise · Dra. Camila Torres

Noam Medeiros tem 10 anos e não teme agulhas. Oferece o braço na Unidade Básica de Saúde da 612 Sul, em Brasília, e atualiza sua caderneta. A cena, prosaica, esconde uma coreografia complexa. A mãe, Ana Paula, respondeu a uma campanha na TV. O ministro da Saúde, Alexandre Padilha, vacinou-se no mesmo posto. A imprensa estava lá. O Sistema Único de Saúde, com sua capilaridade, orquestrava mais um Dia D de multivacinação infantil.

O ato é rotineiro, mas o roteiro, não. Pela primeira vez, a campanha inclui a vacina pneumocócica 20-valente (pneumo 20). O nome é técnico. O efeito, concreto. Amplia-se a proteção contra bactérias que causam de pneumonia a meningite em crianças menores de 5 anos. É um avanço silencioso, o tipo de progresso em saúde pública que não gera manchetes estrondosas, mas que se traduz, ao longo de uma geração, em menos leitos de UTI ocupados, menos sequelas neurológicas, menos lutos.

No entanto, a celebração por um novo imunizante vem acompanhada de um alerta para uma velha ameaça. O ministro Padilha não fala apenas da nova pneumo 20; sua maior preocupação parece ser o sarampo. O Brasil reconquistou o certificado de país livre da doença em 2024, uma vitória epidemiológica frágil. Padilha lembra os 38 casos importados no ano passado, contidos pelo esforço de vacinação do SUS. Não viraram surto. Ainda.

A tensão está toda aí: o esforço para avançar, com a inclusão de uma vacina mais moderna, ocorre simultaneamente à luta para não retroceder. O sarampo é um fantasma que assombra por sua simplicidade brutal. Altamente contagioso, prevenível por vacina, ele é um termômetro da cobertura vacinal e da confiança da população na ciência. Um surto nos Estados Unidos, que se alastra por Canadá e México, coloca a soberania sanitária do Brasil em xeque. O discurso antivacina, como nota o ministro, não respeita fronteiras. Turistas podem trazer o vírus. Se ele encontrar uma população com “bolsões” de não vacinados, a certificação de 2024 pode se tornar apenas uma memória.

O que a cena na UBS de Brasília revela, portanto, não é apenas um programa de saúde em ação. É um retrato da saúde pública contemporânea: uma batalha em duas frentes. Uma, visível e de expansão, que incorpora tecnologia e amplia o escudo protetor das crianças. Outra, defensiva e mais árdua, que luta contra a desinformação para manter de pé conquistas que pareciam definitivas. O sucesso depende tanto da logística de distribuição da pneumo 20 quanto da capacidade de convencer cada família da importância da tríplice viral.

A tranquilidade de Noam Medeiros, braço estendido, é o que se busca. Mas ela não é um dado natural. É uma construção. Quantas conversas, campanhas e alertas serão necessários para que o medo da doença continue, sempre, maior que o medo da agulha?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Dia D de multivacinação infantil inclui pneumo 20 pela 1ª vez

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.