A unidade e seu preço em Kyiv
Análise · Clara Verdi Um homem fala e por trás dele fala uma nação inteira — ou ao menos é essa a ilusão necessária em qualquer esforço de guerra.
Análise · Clara Verdi
Um homem fala e por trás dele fala uma nação inteira — ou ao menos é essa a ilusão necessária em qualquer esforço de guerra. Volodymyr Zelensky sabe disso. Quando afirma que eleições seriam um “tsunami” para a Ucrânia, ele não está apenas adiando um rito democrático; está defendendo o monólito da resistência nacional contra a primeira fissura séria desde 2022.
A política, afinal, é a arte da divisão. Partidos, plataformas, debates. Tudo que uma sociedade em armas não pode se permitir. A lei marcial que suspendeu o calendário eleitoral conta com o apoio esmagador dos ucranianos, e a razão é brutalmente simples: a sobrevivência precede a escolha. Quinze por cento da população, segundo o Instituto de Sociologia de Kiev, acredita que as urnas deveriam ser abertas antes do fim da guerra. O resto entende a equação.
A sombra de Fedorov
A questão não teria sequer emergido se não fosse por Mykhailo Fedorov. O popular ex-ministro da Defesa, o homem dos drones e da modernização militar, encarna uma contradição. Sua popularidade nasceu justamente da sua capacidade de quebrar a ortodoxia do front, de inovar contra um inimigo superior. Ao ser demitido em julho, após choques com o comando militar, tornou-se catalisador de um descontentamento latente, levando a protestos inéditos em tempos de invasão. Sua sugestão de eleições soa, portanto, menos como um apelo democrático e mais como o primeiro movimento de uma disputa pelo poder que a guerra apenas congelou.
Zelensky percebe o perigo. Sua crítica a Fedorov — “está sendo empurrado para coisas erradas” — é um recado direto. O presidente, eleito como um outsider para quebrar o sistema, agora se vê na posição de guardião do status quo de guerra. O que se joga aqui não é apenas a legitimidade de um mandato prorrogado pela necessidade, mas a própria narrativa da unidade inabalável. Uma campanha eleitoral exporia as tensões sobre estratégia militar, a corrupção que persiste, o cansaço que se acumula. Daria voz a tudo o que hoje é silenciado em nome do objetivo comum.
Claro, há quem veja na recusa de Zelensky o reflexo de qualquer poder que se prolonga. Mas os obstáculos práticos para uma eleição — como votarão os soldados nas trincheiras, os milhões de refugiados, os cidadãos sob ocupação russa? — são menos relevantes que o obstáculo simbólico. A Ucrânia resiste porque se imagina una. O debate proposto por Fedorov força o país a se olhar no espelho e perguntar: depois de tanto sangue, ainda somos um só?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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