A última porta que se fecha na Nicarágua
Análise · Rafael Tokyo A revolução, como o tempo, devora seus filhos. Primeiro, os adversários. Depois, as promessas.
Análise · Rafael Tokyo
A revolução, como o tempo, devora seus filhos. Primeiro, os adversários. Depois, as promessas. Na Nicarágua de Daniel Ortega, o banquete parece ter chegado ao último prato: a própria ideia de alternância.
O que se desenrola na Assembleia Nacional não é um mero trâmite legislativo. É a formalização de um fim. Quando Gustavo Porras, presidente da casa, anuncia um plano para excluir a oposição das urnas, ele apenas dá nome ao que já se consolidou nas ruas reprimidas e nas celas silenciadas desde 2018. A lei que virá em agosto servirá de epitáfio para uma democracia que já mal respirava.
A retórica de Ortega, ao celebrar o aniversário da Revolução Sandinista, é reveladora. Ele não anuncia um futuro; ele busca congelar o passado. Ao evocar os "ianques" e os "somozistas", ele reencena a luta de 1979, um drama heroico onde ele segue como protagonista e qualquer opositor é rebaixado a lacaio ou fantasma do antigo regime. A história deixa de ser um processo em curso para se tornar um roteiro fixo, imune ao voto.
É uma arquitetura de poder que vem sendo erguida peça por peça. Primeiro, a repressão violenta aos protestos. Depois, uma reforma constitucional que adiou eleições e instituiu sua esposa, Rosario Murillo, como copresidente, transformando o Estado em extensão da família. Agora, o passo final: abolir o mecanismo que, em tese, poderia desmontar tudo isso.
Uma Coreia do Norte tropical
A comparação do opositor Juan Sebastián Chamorro com a Coreia do Norte, ainda que geograficamente distante, captura a essência do projeto: a criação de um sistema hermético. Um Estado de partido único, onde a única escolha permitida é a da lealdade. Onde as brechas, como disse Porras, precisam ser fechadas para impedir a "manipulação".
Os dias em que partidos apoiados pelos ianques e pelos somozistas voltariam ao poder acabaram. Nunca mais.
O que Ortega chama de manipulação imperial, o resto do mundo costuma chamar de eleição. O ato de votar torna-se, nesse léxico, um ato de traição. A soberania, antes um grito de libertação contra a ditadura de Somoza, converte-se em justificativa para a perpetuação de outra. A Nicarágua não decide mais *quem* a governa, apenas ouve a confirmação de quem já o faz.
O processo iniciado no Congresso é a cerimônia que oficializa o fim do jogo. Não há mais um tabuleiro, nem peças de cores diferentes. Há apenas a mão que as move, declarando vitória por abandono forçado do adversário.
— Rafael Tokyo, de Manágua (enviado especial)
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
Leia o factual: Congresso da Nicarágua inicia plano para abolir eleições
Fontes: g1 · BBC News Brasil