Memórias do Maracanã em artigo de Marcos Tibúrcio
Marcos Tibúrcio reflete sobre a história do Maracanã, desde a visita da Rainha Elizabeth II em 1968 até os momentos icônicos do futebol.
Análise · Marcos Tibúrcio
A Rainha Elizabeth II, sentada ali em 1968, olhou para Pelé como quem vê um igual. O Rei do futebol, suado e mortal, recebia a reverência da realeza do mundo. O cimento daquela Tribuna de Honra, mais que uma estrutura, era um palco. Um palco que agora, anunciam, precisa de R$ 2,5 milhões em reformas para se adequar a “padrões de hospitalidade, segurança e conforto”.
O Governo do Estado, em Recuperação Fiscal e, portanto, de cofres limitados, propõe o negócio: o consórcio de Flamengo e Fluminense paga a conta. Em troca, recebe a chave de um dos camarotes estatais por dois anos. Um acordo de vizinhança. A papelada justifica a obra com a vinda da Copa do Mundo Feminina e até do futebol americano. Uma necessidade, diz o texto oficial, de “representatividade institucional”.
Na arquibancada, onde o cimento é mais rústico e o conforto é o ombro do vizinho, a representatividade é outra. É a do grito, da bandeira, do ingresso que aperta no fim do mês. A preocupação lá de baixo não é com a funcionalidade do camarote 330, mas com o preço da cerveja, o estado do banheiro comum, a catraca que emperra na hora do rush. Enquanto se lustra a sala de visitas para as autoridades da FIFA e da NFL, o resto da casa segue com as goteiras de sempre. Talvez a leitura seja simples demais, e a modernização de um espaço nobre reverta, de alguma forma, para o todo. Mas a história dos estádios nem sempre confirmou essa lógica.
A reforma não é de hoje. O Maracanã é uma cicatriz viva, um corpo que se refaz a cada grande evento, perdendo pedaços da memória em nome de padrões globais. A geral desapareceu para uma Copa, os assentos mudaram para outra. Agora, a Tribuna de Honra. O lugar de onde se viu Garrincha entortar o mundo e Ghiggia silenciar duzentas mil almas precisa de nova roupagem. O poder público entende que a história, por si só, já não é confortável o suficiente para seus convidados.
A tinta será nova, os carpetes, macios. A vista, a mesma: um gramado que guarda mais dramas que qualquer teatro. Mas de que valerá a tribuna mais moderna se, lá de cima, o que se enxergar for um estádio cada vez mais distante de quem lhe deu a vida?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge
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