A terra treme, o Estado é pó
Análise · Clara Verdi Às 7h34 de uma segunda-feira, a Colômbia parou. Não foi um decreto, nem um comunicado oficial. Foi o chão.
Análise · Clara Verdi
Às 7h34 de uma segunda-feira, a Colômbia parou. Não foi um decreto, nem um comunicado oficial. Foi o chão. Durante 96 segundos — uma eternidade geológica, um pânico humano — a terra moveu-se com a fúria de 7,4 graus de magnitude. O epicentro, perto de San José del Palmar, na empobrecida região de Chocó, não é um acidente geográfico, mas uma sentença social. O tremor rasgou o país até a capital, mas mordeu com mais força onde a vida já era precária.
O alerta chegou antes do abalo. Um aviso sonoro e visual nos celulares, concedendo um intervalo de cinco a dez segundos. Um "tempo precioso", como descreveu um engenheiro brasileiro em Medellín, talvez o único luxo oferecido em meio ao caos. Um breve hiato entre a normalidade e o instante em que guarda-roupas e janelas começam a vibrar com uma autonomia assustadora. Um triunfo da tecnologia que apenas sublinha a fragilidade de todo o resto.
Porque, depois do alerta, vem a realidade. Vêm as pessoas usando as próprias mãos e baldes para escavar os escombros em Cali, na ausência imediata das equipes de resgate. Vem a imagem dos pacientes de uma unidade de saúde correndo para a rua enquanto o teto desaba, buscando refúgio na calçada. O Estado, com seus protocolos e planos de emergência, se dissolve nesses minutos em que a única estrutura que resta é a solidariedade dos que se seguram uns aos outros, vendo a torre da igreja ruir como um símbolo do que parecia perene.
Em Pereira, o prédio da esquina não apenas ruiu; ele deu sinais, avisou que ia cair, e as pessoas só puderam assistir, impotentes, à sua entrega final à gravidade. O que se revela quando a terra treme não é apenas a falha geológica. É a falha na argamassa, a rachadura na parede que já existia, a pobreza que define quem mora no prédio que cede primeiro.
Os mais de cem mortos não são apenas vítimas de um desastre natural. São vítimas de uma geografia social, de uma arquitetura da desigualdade que um terremoto apenas expõe com brutalidade. A terra se move sob todos, mas o teto não cai sobre todos da mesma maneira.
O que fica, depois do tremor, não é o silêncio. É o som das mãos contra os destroços, a imagem dos leitos hospitalares no asfalto. E a pergunta sobre quantos segundos de aviso são necessários para escapar do prédio que já estava condenado muito antes de o chão tremer.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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