A terra treme fundo na Colômbia
Análise · Rafael Tokyo Em Pereira, o café da manhã foi servido às sete e trinta e quatro. Depois, não foi servido mais nada.
Análise · Rafael Tokyo
Em Pereira, o café da manhã foi servido às sete e trinta e quatro. Depois, não foi servido mais nada. O chão moveu-se por um minuto que durou uma vida, transformando o ritual matinal da região cafeeira em um inventário de perdas.
Um terremoto de magnitude 7,4 não é apenas um número numa escala. É uma força que reorganiza a geografia e a biografia de um país. O epicentro foi em Chocó, numa cidade de montanha com menos de seis mil habitantes, San José del Palmar. Mas a energia liberada viajou. Viajou para o leste, para as cidades densas de Pereira e Manizales, e para o sul, até Cali. Viajou até ser sentida em Quito, no Equador, e em Manaus, no Brasil. A terra não reconhece fronteiras.
A profundidade do tremor, mais de noventa quilômetros abaixo da superfície, foi uma cruel misericórdia. Um abalo intermediário, dizem os geólogos. Isso explica por que a onda de choque se espalhou tanto, mas também por que a destruição, embora grave, não atingiu a escala catastrófica de outros sismos. Em junho, a vizinha Venezuela tremeu a apenas dez quilômetros de profundidade. O resultado foram milhares de mortos. A física do desastre é uma questão de centímetros e segundos. Na Colômbia, a terra tremeu fundo. A morte subiu mais devagar.
O número de vítimas, porém, sobe. Começou em vinte. Passou de oitenta. Cada atualização das autoridades de Risaralda ou do Valle del Cauca é um acréscimo ao luto. A resposta do Estado segue um roteiro conhecido: o presidente recém-empossado, Abelardo de la Espriella, declara estado de calamidade, concentra o poder em Bogotá, promete liderar pessoalmente os esforços. É a gramática da crise. Socorristas são despachados, aeroportos são fechados, orçamentos são realocados.
Mas nos escombros de Pereira, onde dezoito pessoas morreram, a burocracia não tem som. O que se ouve é o silêncio deixado por quem não está mais ali. O terremoto expôs a fragilidade não só das edificações, mas da normalidade. A rotina foi quebrada. O chão sob os pés, antes uma certeza, tornou-se uma hipótese.
O que resta quando a terra para de tremer?
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
Leia o factual: Terremoto de magnitude 7,4 deixa 82 mortos na Colômbia
Fontes: Agência Brasil · BBC News Brasil