A terra treme, a política espera
Análise · Clara Verdi Cento e onze mortos na Colômbia. Sessenta e um prédios transformados em pó.
Análise · Clara Verdi
Cento e onze mortos na Colômbia. Sessenta e um prédios transformados em pó. O número, ainda provisório, sobe a cada nova busca nos escombros de Cali, mas a gramática da catástrofe já está escrita. A terra move-se segundo uma lógica que desconhece fronteiras, mandatos e ideologias — uma rede de falhas geológicas indiferente à liturgia do poder. Dias depois da posse do advogado de direita Abelardo De La Espriella, a primeira prova de seu governo não veio de um parlamento hostil ou de um protesto de rua, mas das entranhas do continente.
O chão que se abre sob os pés de um novo presidente é um batismo de fogo e de pó. A ajuda internacional é oferecida, as condolências chegam em comunicados oficiais, mas a verdadeira medida do Estado se revela na poeira. A eficácia da resposta de emergência, a engenharia dos edifícios que restaram em pé, a organização do socorro aos vivos — tudo isso fala mais sobre o país do que qualquer discurso de posse. O terremoto expõe as fundações. Não apenas as de concreto.
A América Latina sabe o que significa construir sobre chão instável. O Haiti, em 2010, é a memória mais atroz. Lá, a força do tremor foi amplificada pela fragilidade do que os homens haviam construído: a capital densamente povoada, as edificações precárias, a ausência de um estado capaz de responder. O terremoto não foi apenas um evento geológico; foi o diagnóstico terminal de um colapso político e social. A conta final, em vidas e em escombros, é sempre paga pela infraestrutura que se tem, ou que se não tem.
As práticas de construção precárias, edifícios de concreto e a falta de serviços de resposta ao desastre contribuíram para o elevado número de mortes.
Na Colômbia, como na Venezuela vizinha há dois meses, a terra faz a pergunta que a política costuma adiar. Pergunta sobre planejamento urbano, sobre desigualdade, sobre a capacidade do poder público de proteger os seus. A imagem dos moradores vasculhando os restos de suas casas com as próprias mãos não é apenas o retrato do desespero. É um ato de acusação silencioso contra tudo o que falhou antes mesmo de a terra tremer.
Enquanto a contagem de corpos continua, De La Espriella governa agora sobre uma paisagem de ruínas. Como responderá? Qual Estado emergirá dos escombros?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: CNN Brasil · UOL