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A terra treme, a memória acorda

Análise · Clara Verdi Quinhentos mil corpos sentiram o chão mover-se na Indonésia.

A terra treme, a memória acorda
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

Quinhentos mil corpos sentiram o chão mover-se na Indonésia. A magnitude do sismo, 7.7, é um número abstrato para quem está fora do Círculo de Fogo, essa cicatriz geológica que contorna o Pacífico. Para os indonésios, é um código. Um som que convoca a memória do que já foi e a premonição do que pode vir a ser. O alerta de tsunami que se seguiu não é um procedimento técnico; é o eco de uma catástrofe que ainda não se calou.

A história da Indonésia recente, mais do que com tinta, escreve-se com as marcas deixadas pela tectónica de placas. A terra não é um palco passivo, mas um ator violento. O sismo de 2004, com os seus mais de duzentos e vinte mil mortos, não foi apenas um evento natural. Foi um evento fundador, que redesenhou mapas e destinos, e inscreveu na psique coletiva a imagem da onda que avança sem pedir licença. Os tremores de 2018 em Lombok e Sulawesi, deixando centenas de mortos, não foram réplicas daquele de 2004; foram a confirmação de que a exceção era, afinal, a regra.

O dado do Serviço Geológico dos Estados Unidos — de que estruturas precárias podem sofrer danos graves — expõe a crueldade da geologia: ela nunca é democrática. A falha na terra encontra sempre a falha na construção, a desigualdade no cimento. O risco de morte multiplica-se onde a vida já é mais frágil. Enquanto as autoridades australianas declaram as suas costas seguras, meio milhão de pessoas na Indonésia vivem a suspensão entre o tremor que passou e a onda que pode chegar.

As notícias correrão o mundo como um despacho rápido, mais um número na contabilidade das desgraças globais. Uma magnitude, um alerta, talvez uma primeira contagem de vítimas. Mas o que se passa naquelas horas, naquelas ilhas, é de outra ordem. É a experiência de viver sobre uma fronteira móvel, onde a solidez do mundo é uma convenção temporária, e cada alarme é o regresso a um trauma que nunca foi embora.

Quantas vezes se pode reconstruir uma vida no mesmo lugar onde a terra insiste em desfazê-la?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Indonésia emite alerta de tsunami após terremoto de 7,7

Fontes: CNN Brasil · UOL