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A terra que treme sob os nossos pés

Análise · Clara Verdi A imagem que chega da Colômbia — uma mulher que reza, de olhos fechados, do lado de fora de um prédio em Bogotá — é a gramática…

A terra que treme sob os nossos pés
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A imagem que chega da Colômbia — uma mulher que reza, de olhos fechados, do lado de fora de um prédio em Bogotá — é a gramática universal do medo. O chão que some, o concreto que balança. A terra, a única coisa que deveria ser firme, deixa de ser. É uma suspensão da ordem natural das coisas, o tipo de evento que nos lembra que a civilização é um acordo precário com a geologia.

Os números chegam em seguida, frios e assépticos como um laudo. Magnitude 7,4, segundo os americanos e os próprios colombianos. Profundidade de 107 quilômetros, diz uma agência; 99, corrige a outra. O epicentro no oeste do país, longe o suficiente de Bogotá para que o tremor fosse um susto violento e não uma catástrofe capital, mas perto o bastante para esfacelar a cúpula de uma catedral em Manizales e causar uma “destruição significante” no estado de Chocó.

Daqui, de uma Europa que mede seu futuro em taxas de juros e acordos comerciais, o tremor colombiano parece um despacho distante, uma tragédia de outro hemisfério. Mas não é. A terra que treme sob Bogotá é a mesma que tremeu em L’Aquila, em 2009, e que abalou a Turquia no ano passado. É um lembrete do que as burocracias de Bruxelas e os debates parlamentares em Roma preferem esquecer: que o continente europeu também é uma placa tectônica, não apenas um mercado comum. Somos feitos da mesma matéria instável.

A Europa se ocupa em construir certezas institucionais enquanto ignora as suas próprias falhas geológicas. Falamos de crises de identidade e dívida soberana como se fossem as únicas forças capazes de derrubar nossos prédios. É uma forma de arrogância, talvez. Uma fé excessiva na solidez do asfalto e na perenidade das fronteiras desenhadas em tratados. A notícia de uma catedral ferida em Manizales deveria ressoar nas igrejas barrocas da Sicília e nos templos gregos que já viram impérios ruírem não por decreto, mas pela fúria do solo.

Quantos feridos em Chocó? O governador não especificou. O número, quando vier, se perderá na torrente de dados que nos assalta diariamente. Mas o que fica é a imagem daquela mulher e a vibração que viajou centenas de quilômetros até chacoalhar os prédios de uma capital. Fica a pergunta sobre a nossa própria solidez.

O que resta quando o chão desaparece?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Terremoto de 7,4 atinge Colômbia e causa destruição no oeste

Fontes: g1 · UOL