Terremoto agrava crise política na Venezuela
O país enfrenta novo desafio com tremores de terra em meio à instabilidade econômica e política que já divide a nação.
Análise · Clara Verdi
A Venezuela não precisava disso. Poucos países no hemisfério chegaram à segunda metade dos anos 2020 tão sistematicamente destruídos pela combinação de colapso econômico, autoritarismo e fuga em massa de população — estima-se que mais de sete milhões de venezuelanos deixaram o país na última década, a maior crise migratória da história da América Latina. Sobre esse tecido já rasgado, dois terremotos golpearam a noite de quarta-feira com força suficiente para matar, segundo as autoridades de Caracas, ao menos 188 pessoas. O número vai crescer. Sempre cresce.
O que os rankings de terremotos letais da América Latina e do Caribe revelam — e esses rankings têm uma crueldade própria, a de tornar comparável o incomensurável — é que a morte por terremoto raramente é só geológica. É também política, econômica, arquitetônica. O Haiti de 2010 matou mais de duzentos mil porque era o Haiti de 2010: infraestrutura inexistente, Estado disfuncional, décadas de intervenção externa que produziu dependência sem desenvolvimento. A pergunta que se faz diante de cada grande sismo na região não é apenas onde a terra tremeu, mas o que havia em cima dela quando tremeu.
Na Venezuela de Maduro, o que havia em cima era um sistema de saúde em colapso documentado por organismos internacionais, hospitais sem medicamentos básicos, uma infraestrutura de resposta a emergências que o próprio governo não consegue fingir estar intacta. Quando o Estado não funciona em tempo de paz, o terremoto encontra um país sem anticorpos institucionais. Os mortos de quarta-feira não morreram apenas porque a terra se moveu.
O sismo é o evento. O que o antecede — anos de desinvestimento, de emigração forçada de médicos e engenheiros, de concreto mal misturado e normas de construção ignoradas — é a condição.
Há também uma dimensão geopolítica que o desastre natural tende a suspender temporariamente, ou ao menos a embaraçar. Governos que não se falam mandam condolências. Organizações humanitárias pedem acesso. O regime, que historicamente usa a narrativa da soberania como escudo contra qualquer forma de fiscalização externa, terá de negociar com a realidade de que não consegue sozinho responder ao que aconteceu. Essa negociação — entre o orgulho ideológico do Estado e a necessidade urgente de ajuda — é onde, em outros contextos latinoamericanos, se abriram fissuras políticas inesperadas. Ou onde os regimes aprenderam a administrar o desastre como mais um recurso de controle.
Por enquanto, 188 nomes que ainda não temos. Uma cifra que as autoridades venezuelanas forneceram e que, pela lógica de todo grande terremoto na região, é provisória. A terra já parou de tremer. O resto ainda não começou.
*Clara Verdi, correspondente Europa — Xaplin*Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Venezuela enfrenta terremotos que deixam 188 mortos
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL
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