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A terra que fala e a burocracia que se cala

Análise · Clara Verdi As vozes de Gilmer Yuimachi, na Amazônia peruana, de Xenia López, em El Salvador, ou de Antonella Sleiman, no Chaco argentino…

A terra que fala e a burocracia que se cala
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

As vozes de Gilmer Yuimachi, na Amazônia peruana, de Xenia López, em El Salvador, ou de Antonella Sleiman, no Chaco argentino, não ecoaram nos salões climatizados de Ulaanbaatar da maneira como ecoam na terra seca de suas aldeias. Elas viajam até a Mongólia para contar uma história antiga, que a linguagem das conferências internacionais se esforça por traduzir em novos mecanismos de financiamento e arquiteturas de resiliência — uma linguagem que esteriliza o drama ao tentar resolvê-lo. A história é sobre a terra. E sobre a sede.

Os números são um golpe seco: 28% do território latino-americano está degradado, um índice quase o dobro da média global. Por trás da estatística, vivem as comunidades que Xenia López acompanha no Corredor Seco Centro-Americano, onde o verão se alonga sobre o inverno e a chuva que deveria abastecer a vida, simplesmente, não vem. Vivem os shipibo-konibo de Gilmer Yuimachi, que veem os rios minguarem levando consigo não só o alimento, mas a memória de um povo inscrita na paisagem. Vivem os agricultores de Antonella Sleiman, que passaram da seca histórica a inundações inéditas que devoraram plantações. A crise não é abstrata; ela tem o nome de um rio, o cheiro de um solo empobrecido por químicos, o gosto do que não se pôde colher.

A distância entre Ulaanbaatar e Chalatenango não se mede em quilômetros, mas em percepção. Enquanto a convenção da ONU discute o fortalecimento da participação indígena, os próprios indígenas já praticam a solução que os painéis debatem. É a agroecologia que surge, nas mãos de Xenia e de outros, não como uma política pública desenhada em uma capital distante, mas como um gesto de sobrevivência, um modo de usar a água com a eficiência de quem a conhece pela falta. É a redescoberta de que o solo não é um recurso a ser exaurido, mas um corpo a ser protegido. É o conhecimento ancestral que Gilmer teme perder. A resposta, parece, sempre esteve ali.

O quadro pode, claro, ser lido com o otimismo de quem vê a inclusão de novas vozes nos fóruns globais como um avanço em si. Um passo necessário. Mas a impressão que fica é a de um diálogo de surdos, onde a urgência da experiência concreta se perde na tradução para o jargão diplomático. Um vocabulário que fala em combater a desertificação, enquanto o povo fala em fazer a terra viver de novo. A quem serve, então, a arquitetura global de resiliência, se seus alicerces não tocam o chão que racha?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: América Latina tem 28% de terras degradadas e secas incomuns

Fonte: Agência Brasil