Copa Feminina: Taça no museu celebra futebol que se consolida
A taça da Copa do Mundo Feminina chegou ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. Acompanhe a análise de Marcos Tibúrcio sobre o simbolismo e o impacto do evento para o futebol feminino.
Análise · Marcos Tibúrcio
A taça da Copa do Mundo Feminina pousou, nesta segunda-feira, no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. A foto oficial mostra o troféu emoldurado pela estrutura de concreto e vidro, com o Pão de Açúcar ao fundo — um cartão-postal protocolar, quase burocrático, para um evento que promete ser qualquer coisa menos isso. A diretora da Fifa, Jill Ellis, justificou a escolha do local como uma homenagem ao “futebol-arte” do Brasil. Palavras bonitas. Palavras que ecoam um passado que os homens, em campo, há muito não entregam.
O futebol-arte, essa entidade mística que se evoca sempre que o pragmatismo europeu aperta o cerco, agora é o selo de um torneio feminino. É um batismo simbólico e, talvez, uma aposta. A Fifa não escolheu o MAM por acaso, assim como não escolheu o Maracanã para a abertura e a final por conveniência. Escolheu o mito. Vende a ideia de que o Brasil, por sua simples existência, pode devolver ao jogo uma beleza perdida.
A promessa é de recordes de público. A garantia, segundo Ellis, vem de uma “torcida educada e ativa”. Do lado de fora do museu, nas ruas, o torcedor comum sabe que a educação da nossa arquibancada é forjada no drama, no grito que engole o apito, na alegria que beira a tragédia. É uma educação passional, menos preocupada com a arte do que com o gol aos 45 do segundo tempo. A Fifa fala de arte; o Brasil joga pela vida.
Ainda assim, há uma verdade inegável no discurso da dirigente. O palco impõe respeito. O Maracanã não é apenas um estádio. É o lugar onde o futebol brasileiro aprendeu a chorar em público e a celebrar como se não houvesse amanhã. Entregar a ele a abertura e a final de 2027 é mais do que logística: é um apelo à memória do concreto. A esperança, declarada, de ver Marta em campo, é outro aceno a essa mesma nostalgia de um tempo de reis e rainhas incontestáveis.
Claro, tudo isso pode ser apenas o discurso elegante que antecede a festa. A realidade do futebol feminino no país ainda é uma construção diária, feita longe dos holofotes e dos museus, em campos que não viram e não virarão cartão-postal. A promessa de “acessibilidade” e “legado” é a parte mais difícil da equação, a que não sai na foto oficial com a taça.
O sorteio será em dezembro, no mesmo MAM. Até lá, o troféu volta para sua redoma, e o futebol-arte volta para os livros de história. Resta saber se, em 2027, as jogadoras conseguirão finalmente tirar esse conceito do museu e levá-lo para dentro das quatro linhas.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge