Poder técnico impacta quem enfrenta a morte
Este artigo explora como o poder técnico de profissionais de saúde pode influenciar a experiência de pacientes terminais e suas famílias.
Análise · Clara Verdi
Seiscentos e setenta e cinco mortos. O número chega de Katmandu com a frieza de um despacho de agência, mas carrega o peso de uma geleira que desaba. A imagem de um Himalaia que cede e arrasta consigo cidades, usinas e pontes é o primeiro ato de uma tragédia que se recusa a seguir o roteiro clássico da ajuda humanitária. O governo do Nepal precisa de dinheiro, até cinco bilhões de dólares para a reconstrução, mas dispensa as equipes estrangeiras de resgate. É uma recusa sutil, mas firme.
O gesto nepaleso é um ato de soberania técnica no meio do caos. Não é orgulho ferido nem nacionalismo fora de hora. É o reconhecimento de um limite preciso. O ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, desenhou a fronteira com a clareza de um burocrata que conhece seu país: os socorristas locais sabem como tirar um corpo do barro; não sabem como resgatar um homem preso no túnel de uma usina hidrelétrica. O Nepal não precisa de braços, precisa de expertise. Pede ajuda para testes de DNA, para ampliar a capacidade de armazenamento de corpos, para recuperar a comunicação onde antes havia pontes. Pede a tecnologia da morte digna e da reconstrução possível.
Essa distinção — entre a ajuda que serve ao doador e a ajuda que serve ao que sofre — é o ponto que escapa à cobertura habitual. A chegada de bombeiros franceses ou de cães farejadores alemães compõe uma boa imagem para o telejornal das oito, um quadro reconfortante da solidariedade global. Mas a necessidade real, menos fotogênica, é outra. É a mão de um especialista que sabe como operar um sonar em um túnel inundado. É o conhecimento para evitar que um novo lago formado pelo desastre transborde e mate outra vez.
O que o Nepal deixa claro, talvez sem intenção, é que a dependência tem múltiplas faces. A autonomia para conduzir as próprias buscas é uma delas, mas se esgota onde começa a complexidade imposta por uma modernidade que o próprio país importou — as usinas, as barragens, as grandes obras. É uma lição sobre a natureza da catástrofe no século XXI: o desastre é climático, a morte é ancestral, mas o resgate exige uma técnica que poucos dominam. O quadro ainda pode mudar, claro; o número de desaparecidos é uma sombra que se projeta sobre os dados oficiais.
Por enquanto, o governo planeja valas comuns para os corpos não identificados. Uma solução pragmática para um problema sanitário. Mas que outra imagem define melhor a solidão de um país que, diante da morte em massa, precisa pedir ao mundo não um abraço, mas um laboratório de DNA?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: g1 · CNN Brasil