A segunda vida que o VAR deu a Muriel
Análise · Marcos Tibúrcio Aos três minutos do segundo tempo, o Estádio dos Aflitos viu um homem condenado.
Análise · Marcos Tibúrcio
Aos três minutos do segundo tempo, o Estádio dos Aflitos viu um homem condenado. Muriel, goleiro, saiu da sua pequena área como quem abandona o juízo. Deixou para trás a cal, a trave, a segurança de ser goleiro. E, no descampado do meio-campo, errou o bote. Furou a bola e ceifou Gustavo Coutinho, o atacante do Atlético-GO que partia livre para o gol vazio. O árbitro Wagner do Nascimento Magalhães não hesitou. Sacou o vermelho, o cartão que é uma sentença.
Naquele instante, Muriel não era mais apenas o arqueiro do Náutico. Era o vilão da tarde, o irmão de Alisson Becker que faria manchetes por um motivo infame. Gastón Guruceaga, o reserva, já se despia do colete no banco, pronto para entrar na fogueira de um time com dez. A torcida do Timbu, que antes cantava com a vantagem de 1 a 0, emudeceu. O futebol tem desses silêncios. São mais ruidosos que qualquer grito.
Mas o futebol, agora, tem também um fantasma que mora numa cabine com monitores. O que o olho do árbitro sentenciou, a máquina revisou. O VAR chamou. E o que se viu não foi a falta, mas o que veio antes dela — a semente de tudo. Havia um impedimento na origem do lance, uma infração anterior à que todos viram e julgaram. A falta de Muriel, o atropelo, o cartão vermelho, tudo aquilo existiu, mas para a regra, nunca aconteceu.
O árbitro trotou até a lateral, assistiu à reprise do pecado original e voltou ao gramado. O gesto de anular o próprio gesto foi a revogação de um destino. O cartão vermelho voltou para o bolso. Muriel, que já caminhava para o vestiário com o peso do erro nos ombros, recebeu uma segunda vida na mesma partida. O homem condenado foi absolvido pela tecnologia que tantos acusam de matar a alma do jogo.
O Náutico não segurou a vitória; cedeu o empate. Mas o placar final é um detalhe perto do drama que se desenrolou ali. Por alguns minutos, um goleiro foi expulso, um reserva se preparou para o sacrifício e uma arquibancada viveu o luto de uma derrota iminente. Tudo para, no fim, ser desfeito por uma linha invisível traçada a quilômetros dali. A quem, afinal, pertence o erro no futebol moderno?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge