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Diplomacia climática global aprende lições de Brasília na Mongólia

Em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, a diplomacia do clima aprendeu uma lição antiga dos salões de Brasília sobre os custos e negociações de acordos.

Diplomacia climática global aprende lições de Brasília na Mongólia
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

Em Ulaanbaatar, capital da Mongólia, a diplomacia do clima aprendeu uma lição antiga dos salões de Brasília: quando o custo da assinatura sobe, adia-se a reunião. A 17ª Conferência das Nações Unidas de Combate à Desertificação (COP17) terminou com a decisão de não decidir. O mecanismo global para enfrentar as secas, uma demanda que os países africanos levam à mesa há pelo menos três encontros, foi empurrado para a COP18, no Egito. Faltam dois anos.

O palco mudou, mas o roteiro é familiar. De um lado, nações que convivem com a escassez de água como fato cotidiano e pedem um fundo específico, com regras de desembolso rápido para antecipar e remediar eventos extremos. Para eles, instrumentos como o Fundo Global para o Meio Ambiente (GEF) são guarda-chuvas largos demais, desenhados para o tema difuso da “degradação das terras”. A seca exige precisão cirúrgica e dinheiro carimbado.

Do outro lado, os países mais ricos, que controlam o caixa. Para seus negociadores, criar um novo mecanismo multilateral significa abrir uma nova linha de despesa permanente. E o orçamento, como se sabe, é a peça de ficção mais bem elaborada de qualquer governo. O adiamento não é um fracasso processual. É uma vitória política de quem ganha tempo para não abrir a carteira.

A ironia, seca como o solo europeu neste ano, é o pano de fundo. Richard Lee, da organização Wetlands Internacional, nota que a falta de consenso ocorre enquanto o Rio Colorado, nos Estados Unidos, atinge níveis historicamente baixos. O Super El Niño ameaça estender a aridez da África Austral à Amazônia. A realidade bate à porta dos países que hesitam em assinar o cheque. Eles sentem o calor, mas ainda não a sede.

A análise que vê apenas a inércia burocrática talvez perca o ponto central. O que se viu na Mongólia não foi paralisia, foi movimento calculado. O adiamento estrutura a derrota dos mais vulneráveis. Christine Colvin, especialista da WWF Global, fala em frustração e na falta de uma base para construir ações. É o resultado esperado quando um lado discute sobrevivência e o outro, rubricas orçamentárias.

Restam agora as iniciativas que a própria Colvin menciona: governos, sociedade civil e instituições financeiras agindo de forma isolada. São ações meritórias. E insuficientes. Elas tratam os sintomas locais de um problema que a diplomacia, em Ulaanbaatar, atestou ser sistêmico.

Daqui a dois anos, no Egito, os mesmos atores se sentarão à mesa. O planeta estará mais quente. A conta, mais alta. Quem pagará a diferença entre o tempo da natureza e o tempo da burocracia?

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: COP17 adia acordo sobre secas

Fonte: Agência Brasil