Desabamento na Ilha do Fogo deixa feridos
Um deslizamento de terra na Ilha do Fogo causou danos significativos e deixou moradores feridos, acionando equipes de resgate.
Análise · Clara Verdi
Há acidentes que são apenas isso, acidentes. Um pneu que estoura, o volante que se perde, um ônibus escolar que despenca trinta metros por uma ribanceira na Ilha do Fogo. Há outros que, na sua brutalidade estatística — 25 mortos, a maioria crianças —, iluminam por um instante a normalidade de um lugar.
Cabo Verde não é um país de estradas precárias ou de catástrofes rodoviárias recorrentes. O arquipélago, com seus 550 mil habitantes, vive uma rotina onde o asfalto é, em geral, confiável. A tragédia de sábado irrompe precisamente aí, no terreno do improvável. O ônibus que levava 32 pessoas não era parte de um sistema falido; era parte de um ritual. A excursão anual de fim de férias, organizada de forma particular pelo motorista que também morreria ali, pouco antes da volta às aulas.
Um gesto da comunidade, não do Estado. O passeio ao vulcão Pico do Fogo era uma tradição local, a pequena alegria antes do regresso à disciplina. Isso, que as notas de agência mencionam de passagem, é o centro da questão. A linha entre o que uma comunidade faz por si e o que a estrutura formal oferece é sempre porosa, em especial nas ilhas, onde a vida se organiza em escalas menores, mais íntimas. A viagem não era um serviço escolar oficial, e talvez por isso mesmo fosse tão viva.
O que se sabe, ou o que as testemunhas relatam, é o prosaico terror de um pneu estourado. O resto é a geografia de uma ilha vulcânica impondo sua lei: uma queda em área de difícil acesso, sete corpos sepultados de imediato, um presidente da República que chama o fato de “uma grande catástrofe”. A linguagem oficial tenta dar conta do choque, mas a dimensão do luto pertence a São Filipe, à espera dos seus filhos que não voltaram do vulcão.
Não há aqui uma lição fácil sobre negligência sistêmica, ao menos não com os fatos de que dispomos até agora. O que existe é o retrato de um fim de verão que o som de um pneu transformou em outra coisa.
Quantas dessas excursões, por toda a África, por todo o sul da Europa, acontecem a cada ano na fronteira do formal, movidas por um motorista que conhece as crianças pelo nome? Quantas terminam com todos de volta em casa, cantando?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Acidente com ônibus de excursão mata 25 em Cabo Verde
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo