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Criminosos usam reza, cartão e carro alugado em golpes

Golpistas operavam perto de agências bancárias em Taguatinga, Distrito Federal, utilizando métodos engenhosos para enganar vítimas.

Criminosos usam reza, cartão e carro alugado em golpes
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Renata Peixoto

A abordagem acontecia perto de agências bancárias em Taguatinga, Distrito Federal. O primeiro criminoso oferecia um elixir, uma cura. O segundo, um curandeiro, prometia “melhorar a saúde financeira”. A vítima, um idoso, entregava o cartão para uma bênção. Recebia de volta um envelope, com a instrução de mantê-lo fechado por sete dias. O tempo que o grupo precisava para esvaziar a conta e desaparecer.

Cidade é política pública concretada. E a geografia de um crime como este revela o que foi — e o que não foi — concretado em nosso espaço público. O golpe não ocorre no ambiente digital, abstrato. Ele tem endereço: acontece no espaço físico entre a porta do banco e o ponto de ônibus, no trajeto entre a farmácia e a casa. Um território onde a calçada é irregular, a sombra é escassa e a travessia, arriscada. Onde uma pessoa mais velha, com mobilidade reduzida, se torna um alvo visível e lento.

O método do grupo, que veio da Bahia e usava carros alugados para agir em São Paulo, Minas e no DF, expõe uma assimetria fundamental. De um lado, a hiper-mobilidade dos criminosos, que atravessam estados com a facilidade de quem troca de chip de celular. A mesma fluidez que o planejamento urbano contemporâneo celebra para o automóvel. Do outro, a imobilidade forçada das vítimas, idosos cujos deslocamentos a pé são frequentemente uma prova de obstáculos, limitados a um raio de poucos quarteirões ao redor de casa.

Onde o Estado falha em garantir um caminhar seguro e digno, o crime encontra seu palco. A promessa de “saúde financeira” oferecida pelos golpistas é uma perversão cruel, mas só encontra eco porque a insegurança — física, econômica, existencial — já está instalada naquele metro quadrado de calçada. A fraude explora a vulnerabilidade que a própria cidade produziu.

Não sabemos ainda quantas vítimas não procuraram a polícia, por vergonha ou falta de meios. O que sabemos é que o desenho urbano que isola moradores, que prioriza o fluxo de veículos sobre a permanência de pessoas e que transforma o espaço público em mero corredor de passagem, também abençoa este tipo de crime.

Quanto custa o aluguel de um carro? E quanto custa redesenhar uma calçada para que uma senhora possa caminhar do banco até sua casa sem medo ou desequilíbrio?

Renata Peixoto — Cidades — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Trio que furtava cartões de idosos é preso em Taguatinga, DF

Fontes: g1 · UOL

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.