A reunião que o Senado precisou de um mês para marcar
Análise · Luciano Aragão Na quarta-feira, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, vai reunir lideranças para discutir a PEC que extingue a escala…
Análise · Luciano Aragão
Na quarta-feira, Davi Alcolumbre, presidente do Senado, vai reunir lideranças para discutir a PEC que extingue a escala de trabalho 6x1. O dado relevante não é a reunião. É o tempo que ela levou para ser convocada.
A PEC chegou ao Senado com uma pressão rara: aprovação unânime na Câmara, cobertura sustentada, respaldo sindical e popularidade nas pesquisas. O tipo de combinação que, em tese, acelera o calendário parlamentar. O que se viu foi o oposto. Mais de um mês de silêncio institucional — sem audiência pública, sem relator designado, sem sinal de pauta. A convocação de agora não desfaz esse intervalo; ela o confirma.
O Senado tem seus próprios ritmos, e Alcolumbre conhece bem como calibrá-los. Uma PEC que mexe na estrutura da jornada de trabalho envolve setores com presença capilar no Congresso — varejo, alimentação, serviços, transporte. São segmentos que não têm bancada formal, mas têm representação informal consolidada. Nenhum nome precisa aparecer na pauta para que o interesse esteja presente na sala.
Convocar uma reunião é diferente de pautar uma votação. O primeiro ato é gestão de agenda. O segundo é decisão política.
A distinção importa porque a convocação de Alcolumbre não estabelece data de votação, não designa relator e não sinaliza o texto que o Senado pretende endossar ou alterar. É um movimento que reabre o processo sem comprometer seu desfecho. Qualquer coisa pode sair da quarta-feira: um cronograma, uma nova rodada de consultas, um substitutivo ou, simplesmente, mais tempo.
O governo Lula navega essa questão com o cuidado de quem não quer pagar o custo de nenhum dos dois lados. Apoiar abertamente a PEC original irrita o empresariado. Bloquear ou esvaziar irrita a base sindical e os movimentos que fizeram da escala 6x1 um símbolo de agenda. A equidistância tem prazo de validade, e um mês de paralisia já começou a cobrar seu preço em narrativa.
Alcolumbre tem histórico de transformar reuniões em instrumentos de controle de temperatura política. A convocação sinaliza que o tema não será ignorado. O que ela não diz — e talvez seja esse o ponto — é o que será feito com ele. No Senado, a diferença entre discutir e decidir costuma ser o espaço onde as matérias envelhecem.
A PEC do 6x1 vai chegar à quarta-feira com toda a sua pressão simbólica intacta. O que muda, a partir de agora, é que o Senado terá de responder publicamente ao que antes conseguia administrar pelo silêncio.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: Alcolumbre convoca reunião sobre PEC do fim da escala 6x1
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL