A queda do homem que construiu cidades vazias
Análise · Rafael Tokyo Hui Ka Yan, nome em cantonês. Xu Jiayin, em mandarim. Um homem com dois nomes e uma única, colossal dívida.
Análise · Rafael Tokyo
Hui Ka Yan, nome em cantonês. Xu Jiayin, em mandarim. Um homem com dois nomes e uma única, colossal dívida. A sentença de prisão perpétua, lida em um tribunal de Shenzhen, não é o fim da crise imobiliária chinesa. É a cerimônia de encerramento da sua primeira fase: a era da expansão a qualquer custo, encarnada pelo fundador da Evergrande.
A lista de acusações é extensa. Fraude financeira, captação ilegal de fundos, ocultação de passivos. Oito crimes, dos quais Hui se declarou culpado. Mas a acusação central, o argumento que sustenta a pena máxima, está na linguagem do próprio tribunal: o fundador da Evergrande “prejudicou gravemente a ordem da economia de mercado socialista”. A frase não é um mero jargão burocrático. É o roteiro.
Hui Ka Yan — que em 2017 foi o homem mais rico da China, com um patrimônio de US$ 43 bilhões — não foi condenado apenas por quebrar uma empresa. Ele foi sentenciado por quebrar um pacto. O pacto tácito entre o Partido Comunista e os bilionários que ele permitiu florescer: enriqueçam, construam, expandam, mas nunca ameacem a estabilidade sistêmica que só o Estado pode garantir.
A Evergrande violou essa regra. Seus US$ 300 bilhões em passivos não eram apenas um problema contábil; tornaram-se um problema social, com apartamentos inacabados, fornecedores sem pagamento e investidores de varejo arruinados. Hui, antes o garoto-propaganda do milagre chinês, virou seu principal fator de risco.
A sentença, portanto, é menos sobre justiça aos credores — que dificilmente verão seu dinheiro de volta — e mais sobre reafirmação de poder. O Estado chinês, ao confiscar os bens de Hui e trancá-lo para sempre, envia uma mensagem clara aos capitães da indústria: a mão que lhes deu licença para construir impérios é a mesma que pode, a qualquer momento, demolir o imperador. O destino de cinco outros executivos, com penas de seis a dezoito anos, reforça a escala da operação.
Ainda é cedo para saber se a punição exemplar estabilizará um setor que responde por um quarto da economia. Outras incorporadoras seguem atoladas em dívidas, e a confiança do consumidor não se reconstrói com uma sentença judicial, por mais dura que seja. A trajetória de Hui Ka Yan, do topo do Partido ao fundo de uma cela, apenas desenha o contorno do que foi perdido.
O que resta da Evergrande hoje? Torres de apartamentos que ninguém habita, títulos que ninguém compra. E um fundador que, de dentro da prisão, observará o Estado tentar remontar as peças do modelo econômico que ele mesmo ajudou a erguer e a quebrar.
Rafael Tokyo — Ásia. Xaplin.
Leia o factual: Fundador da Evergrande é condenado à prisão perpétua na China
Fontes: g1 · CNN Brasil