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A prata de Giovanna, o ouro do drama

Análise · Marcos Tibúrcio Um tatame no Equador não é o Maracanã. Mas a glória e a tragédia, irmãs siamesas de todo esporte, não escolhem endereço.

A prata de Giovanna, o ouro do drama
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Análise · Marcos Tibúrcio

Um tatame no Equador não é o Maracanã. Mas a glória e a tragédia, irmãs siamesas de todo esporte, não escolhem endereço. Giovanna Imhof, 16 anos, pisou no tablado de Guayaquil duas vezes em poucos minutos. Na primeira, carregava a esperança de um país nas costas. Na segunda, o peso do que acabara de ser.

A final contra o Cazaquistão era um roteiro clássico de reviravolta. O Brasil perdia por 3 a 2. A última luta era dela, Giovanna, menina de São Vicente, contra uma cazaque chamada Iyanat Zhubatkan. A obrigação era vencer para forçar um desempate. E ela venceu. Saiu perdendo por um yuko, pontuação mínima, mas buscou um waza-ari, golpe que quase define um combate. Empatou o confronto geral. A equipe respirou.

O regulamento, essa entidade fria que ignora o pulsar do coração, mandou a decisão para o sorteio. Uma categoria, uma luta de vida ou morte. E a roleta parou justamente no peso dela, 48 quilos. Para o tatame, de novo, Giovanna. Contra a mesma Zhubatkan. Sem tempo para o corpo esfriar ou a alma assentar.

A vitória que o vídeo levou

No judô, como na vida, o que parece ser nem sempre é. Giovanna atacou, o árbitro assinalou um yuko. Um ponto. Aquele ponto que seria o do ouro. Mas a frieza eletrônica do vídeo, essa nova testemunha ocular que substitui a paixão do juiz, mandou anular. Não houve ponto. A luta seguiu, e o que não veio para um lado, veio para o outro. A cazaque encaixou um waza-ari. Fim de papo.

A prata veio, mas o ouro escapou por uma decisão eletrônica e um golpe sofrido minutos depois de se ter sido heroína. É um veredito cruel, talvez. Outro diria que é apenas a regra. O que fica, para além da medalha que ela trará no peito, é o drama em dois atos que viveu em Guayaquil. O drama da lutadora que salva sua equipe e, logo em seguida, é escolhida pelo destino para o sacrifício final.

É com esse metal de sabor complexo que uma atleta se forja. Venceu canadense, venceu mongol, venceu a cazaque uma vez. O ouro não veio. A judoca, talvez, tenha nascido ali. Aos 16 anos, o que se leva de uma final assim: a prata conquistada ou o ouro que o vídeo anulou?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Judoca Giovanna Imhof ganha prata com Brasil no Mundial Cadete

Fonte: ge