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A peneira, o mapa e a camisa amarela

Análise · Marcos Tibúrcio Há campos pelo Brasil onde a poeira sobe antes da bola.

A peneira, o mapa e a camisa amarela
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

Há campos pelo Brasil onde a poeira sobe antes da bola. Campos de terrão, batizados por times que existem mais na memória que no presente, como aquela Ponte Preta de São Luís, no Maranhão. Foi ali, entre a terra e o sol, que um observador do Sport Recife viu um garoto diferente. O nome dele é Yan Gabriel. Tinha 13 anos. Hoje, tem 15 e uma convocação para a seleção brasileira.

O futebol moderno, com seus mapas de calor e estatísticas de desarme, gosta de se vender como ciência exata. Clubes investem em “mapeamentos”, planilhas que indicam de onde brotam os talentos. O Maranhão, dizem os papéis do Sport, é um desses celeiros. Mas a verdade do futebol não está no relatório, está no olho. A planilha aponta a direção; a peneira é que separa o jogador do menino.

E o que viram em Yan Gabriel? Potência física, diz o ex-coordenador. Vantagem nos duelos, bom cruzamento. É a linguagem do profissional, a descrição fria de um ativo. Mas o que o futebol enxerga, o que faz um scout parar e anotar um nome, é outra coisa. É a relação com a bola, a intimidade. É ver um lateral-esquerdo que não se contenta com a linha de fundo, que busca o gol com a fome de um centroavante. Agressividade, ele mesmo define. A palavra certa.

Em sua estreia com a camisa amarela, contra o Chile, marcou um gol. O próprio garoto estranha: “Não é normal um lateral marcar gols”. Não, não é. Mas também não é normal que a jornada entre o terrão maranhense e a Granja Comary, o templo sagrado da bola, leve menos de dois anos. A carreira de um jogador é uma luta contra o que é normal.

Agora, o clube corre para amarrar seu primeiro contrato. A burocracia tenta alcançar o talento. Para a arquibancada da Ilha do Retiro, no entanto, o nome de Yan Gabriel já não é um ativo a ser protegido, mas uma esperança a ser cultivada. É a promessa de que em algum lugar do Nordeste, neste exato momento, um outro garoto chuta uma bola num campo de poeira, esperando pelo olhar de alguém.

Quantos Yan Gabriels o mapa não vê?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Yan Gabriel, do Sport, é convocado para seleção sub-15

Fonte: ge