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Suíça assina paz que a Europa pagará

A Suíça foi escolhida como palco para negociações porque historicamente é neutra e confiável.

Suíça assina paz que a Europa pagará

Análise · Clara Verdi

A Suíça foi escolhida porque a Suíça sempre é escolhida. Há algo de conveniente na neutralidade quando dois países que se destruíram por semanas precisam de um palco que não humilhe nenhum dos dois. Mas a cerimônia de sexta-feira em solo helvético não apaga uma pergunta que a Europa deveria fazer a si mesma com alguma urgência: o que aconteceu com o mundo enquanto Washington e Teerã trocavam golpes, e quem arcou com o custo que nenhum comunicado oficial vai nomear?

O anúncio veio pelo Paquistão — detalhe que não é menor. Islamabad como porta-voz de um entendimento entre as duas potências diz algo sobre a arquitetura de influência que este conflito redistribuiu. O Irã não chegou a esta mesa em colapso; chegou negociando. Os EUA não chegaram vitoriosos; chegaram assinar. Esse equilíbrio incômodo é o dado político central, e é exatamente o tipo de dado que tende a desaparecer na liturgia das cerimônias de paz.

Para a Europa, a guerra durou o tempo suficiente para revelar, mais uma vez, sua posição no tabuleiro: observadora qualificada, sem poder de agenda. Bruxelas emitiu notas. Paris tentou mediação — sem resultado registrado. Berlim conteve o silêncio com declarações de "preocupação profunda". O velho reflexo atlântico funcionou como sempre: a Europa esperou que Washington decidisse, e Washington decidiu quando quis. A arquitetura de segurança do continente, que os últimos anos de guerra na Ucrânia já tinham exposto como frágil, saiu desta crise sem nenhum teste superado — apenas com mais evidências de dependência.

O Estreito de Ormuz tensionado por semanas produziu o tipo de ansiedade que os mercados de energia europeus conhecem bem desde 2022. A transição energética europeia ainda não chegou ao ponto em que uma crise no Golfo seja indiferente ao aquecimento de apartamentos em Milão ou Varsóvia. Isso também não vai entrar no comunicado de sexta.

A paz não é o fim de uma guerra. É o início da disputa sobre quem a ganhou.

Essa disputa vai ocupar meses. O Irã vai narrar sua sobrevivência como resistência histórica — e não estará completamente errado. Os EUA vão narrar o acordo como demonstração de força coercitiva — e também não estarão completamente errados. As duas narrativas são incompatíveis e as duas circularão livremente, porque é assim que funciona a diplomacia do século que estamos vivendo: sem árbitro, sem memória institucional suficientemente forte para impor uma versão única.

A Europa que assiste a isso de Genebra — metáfora perfeita, já que será literalmente em solo suíço — é uma Europa que ainda não decidiu se quer ser sujeito ou testemunha da ordem internacional. A cerimônia de sexta pode ser um bom momento para fazer essa pergunta. Não porque alguém vá respondê-la naquele salão. Mas porque o silêncio europeu diante da resposta é, ele próprio, uma escolha.

Clara Verdi, correspondente Europa

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: EUA e Irã assinam acordo para encerrar guerra na sexta-feira

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL