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Acordo de paz colombiano fracassou frente ao cultivo de coca

Análise de Clara Verdi sobre como o narcotráfico minado o acordo de paz de 2016 na Colômbia. A contradição entre estabilidade política e economia ilícita.

Acordo de paz colombiano fracassou frente ao cultivo de coca

Análise · Clara Verdi

Há uma lógica perversa no coração da questão colombiana que qualquer leitura apressada tende a ignorar: o acordo de paz de 2016 entre o governo e as FARC foi, ao mesmo tempo, um triunfo diplomático genuíno e uma espécie de reorganização do caos. Quando um ator armado hegemônico abandona o campo, não deixa vácuo — deixa mercado. E mercado, no caso colombiano, significa coca.

Nora Taquanas acreditou que 2016 havia encerrado algo. É difícil culpá-la. O acordo era historicamente inédito, negociado por anos em Havana com uma seriedade que desarmou até os céticos mais endurecidos. O que ela, como tantos colombianos rurais, não poderia prever com clareza é que a paz formal entre Estado e guerrilha não dissolve a economia que sustentou décadas de conflito. A coca continuou crescendo. Os grupos que ocuparam o espaço das FARC — dissidências, paramilitares reconstituídos, organizações criminais transnacionais — continuaram colhendo.

O problema não é novo, mas se aprofundou. A Colômbia é o maior produtor mundial de cocaína há anos, e os sucessivos governos, de Uribe a Petro, encontraram na erradicação forçada e nas negociações paralelas respostas que o tempo tem demonstrado insuficientes. Petro chegou ao poder com uma proposta de "paz total" — negociar com todos os grupos armados simultaneamente — que tem enfrentado o peso da realidade: grupos que lucram com o narcotráfico não têm o mesmo incentivo estrutural para a paz que uma guerrilha ideológica tinha. O dinheiro da droga é concreto. A ideologia, ao menos, tinha contradições que podiam ser exploradas diplomaticamente.

O que se perde quando se resume a Colômbia ao binômio guerra-paz é a textura econômica do conflito — a forma como a coca articula território, violência, pobreza rural e demanda global numa cadeia que nenhum acordo bilateral é capaz de romper sozinho.

Há também uma dimensão europeia nessa história que raramente aparece nos enquadramentos latino-americanos do tema. A Europa é o segundo maior mercado consumidor de cocaína do mundo, e os portos de Antuérpia, Roterdã e Hamburgo tornaram-se, nos últimos anos, epicentros do tráfico transatlântico. A violência que Nora Taquanas testemunha em sua região rural colombiana e os tiroteios nos armazéns belgas compartilham a mesma cadeia de valor. Ignorar essa continuidade é uma escolha política, não uma limitação analítica.

A pergunta que o caso colombiano força é desconfortável: é possível construir paz territorial sem desmantelar a economia que financia a guerra? A resposta honesta, até agora, é não. Ofensivas militares fragmentam grupos mas não eliminam o incentivo econômico. Negociações criam tréguas mas não alteram a estrutura fundiária que empurra o camponês para a coca como única alternativa viável. O Estado colombiano chega tarde, mal e armado nas regiões onde chegou antes o narcotráfico.

O acordo de 2016 foi real. A esperança de Nora Taquanas foi real. O que também é real — e mais antigo do que qualquer acordo — é que a paz na Colômbia exigiria transformações que transcendem o silêncio das armas: reforma agrária, presença estatal substantiva no interior, e, sobretudo, uma honestidade coletiva sobre quem, afinal, consome o que a guerra protege.

Clara Verdi é correspondente Europa da Xaplin

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Narcotráfico intensifica conflito na Colômbia apesar de acordo de paz

Fontes: Folha de S.Paulo · UOL