A paz negociada com bombas
Análise · Clara Verdi Sete mortos em uma casa no vilarejo de Ansar. Três eram crianças.
Análise · Clara Verdi
Sete mortos em uma casa no vilarejo de Ansar. Três eram crianças. A matemática do sábado no sul do Líbano é crua, despojada de qualquer eufemismo diplomático, como um corpo exposto. A paz, aqui, tem um léxico próprio, onde “acordo” e “ataque aéreo” convivem na mesma frase, e a morte de civis é um efeito colateral justificado em um post no X. É o que Tel Aviv chama de negociação.
A narrativa oficial israelense — uma resposta a um ataque do Hezbollah, a eliminação de um comandante, a alegação tardia de que civis foram “deliberadamente colocados” em um complexo militar — segue um roteiro tão gasto que se torna transparente. Revela não uma estratégia de defesa, mas uma gramática de poder. O ataque mais profundo em território libanês em meses não foi um acidente, um desvio. Foi, nas palavras do próprio gabinete de Netanyahu, uma forma de “impulsionar as negociações e torná-las muito mais sérias”. A bomba como argumento. A morte como um instrumento para forçar o assentimento.
A Europa e os Estados Unidos, mediadores desse processo, assistem a essa lógica com um silêncio que se confunde com cumplicidade. O acordo de paz, mediado por Washington, mantém tropas israelenses em solo libanês até o desarmamento do Hezbollah. Para o grupo iraniano, e para uma parte considerável do Líbano, isso não é um pacto, mas um ditado. Uma *resa*, uma rendição. O presidente libanês, Joseph Aoun, entende a mensagem: os corpos em Ansar e Deir El Zahrani são um recado para os negociadores que se sentarão à mesa em Roma.
O que se desenrola na fronteira não é um simples conflito entre um Estado e uma milícia. É a demonstração brutal de que certos acordos nascem para falhar, ou melhor, para perpetuar o desequilíbrio que dizem querer sanar. O sangue das crianças em Ansar não interrompe a diplomacia; ele a lubrifica, tornando-a “muito mais séria”.
A paz se torna, então, apenas a continuação da guerra por outros meios. Quantos mortos são necessários para tornar uma negociação séria de verdade?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Ataque de Israel mata 11 no Líbano
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo