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A paz impossível de Netanyahu

Análise · Clara Verdi A palavra, na boca de Benjamin Netanyahu, ganha uma elasticidade perigosa.

A paz impossível de Netanyahu
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A palavra, na boca de Benjamin Netanyahu, ganha uma elasticidade perigosa. O Hamas, disse Donald Trump na semana passada, aceitou o desarmamento. O primeiro-ministro israelense, no domingo, disse que não: o Hamas precisa estar “verdadeiramente desarmado”. Entre o desarmamento e o desarmamento verdadeiro existe um abismo semântico onde moram os planos de paz. E onde Netanyahu enterra o de Trump.

A recusa israelense ao documento de 15 pontos, apresentado pelo chamado “Conselho de Paz” americano, não é apenas uma manobra tática. É a reafirmação de um princípio que rege a política de Netanyahu há décadas: a condição permanente da guerra. Para ele, a paz não é um objetivo a ser alcançado, mas uma concessão a ser evitada. A exigência de uma retirada israelense condicionada a um desarmamento “verdadeiro” do Hamas é uma condição impossível, desenhada para ser impossível. É um não dito com outras palavras.

O que se vê não é um impasse, mas a execução de um roteiro. A proposta americana, aceita pelo Hamas, criava um problema para Tel Aviv. Aceitá-la seria admitir um interlocutor e uma via negociada; recusá-la abertamente seria confrontar o aliado em Washington. A solução, tipicamente netanyahuiana, foi torcer a linguagem até que ela significasse o seu contrário. O adjetivo — “verdadeiramente” — anula o substantivo, o desarmamento. Esvazia o acordo. Transforma a pré-condição em um horizonte inalcançável.

Ao falar, na mesma reunião de gabinete, sobre impedir o Irã de obter armas nucleares independentemente de qualquer negociação, Netanyahu deixa claro que o palco é maior que Gaza. Ele não fala apenas sobre o Hamas; fala a Washington sobre o Irã. O gesto de rejeitar o plano americano para a Palestina é também um aviso sobre a soberania de Israel em suas decisões de segurança regional. Ele reivindica o poder de definir não apenas seus inimigos, mas também os termos de qualquer paz. Uma paz sob sua tutela. Ou nenhuma.

O resultado é a paralisia. A recusa israelense não apenas impede o avanço da segunda fase do plano de reconstrução de Gaza; ela expõe a fragilidade da mediação americana quando o seu principal aliado regional decide que a guerra, por enquanto, é mais útil que a paz. A paz, afinal, exige compromisso e um fim. A guerra, não. Ela se alimenta de si mesma.

O que acontece quando o vocabulário da paz serve apenas para prolongar o conflito?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Israel rejeita plano de Trump para Gaza e exige desarmamento do Hamas

Fontes: g1 · UOL