A paz dos vencedores em Gaza
Análise · Clara Verdi Há uma gramática da ocupação, uma sintaxe do poder que se revela menos nos bombardeios e mais nos comunicados oficiais.
Análise · Clara Verdi
Há uma gramática da ocupação, uma sintaxe do poder que se revela menos nos bombardeios e mais nos comunicados oficiais. A notícia de que o gabinete de Netanyahu aprova uma "Força Internacional de Estabilização" em Gaza chega a Washington um dia antes do próprio primeiro-ministro, um presente diplomático embrulhado para consumo americano. A força, com duzentos membros de nações como Uganda e Marrocos, atuará onde Israel não atua. É uma concessão que não cede nada, um gesto de abertura que apenas redesenha os muros.
O diabo, como sempre, não está nos detalhes, mas na própria arquitetura do plano. Israel, que já controla efetivamente 64% da Faixa, anuncia a intenção de expandir seu domínio para 70%. A força internacional, portanto, fica com o que sobra: uma estreita faixa litorânea onde dois milhões de pessoas sobrevivem entre escombros e tendas, sob o controle de um Hamas que não depõe as armas. A paz proposta por Trump, com sua administração de tecnocratas palestinos, definha no papel. O comitê de gestão que deveria implementá-la segue barrado por Israel, fantasma de uma soberania que nunca nasceu.
O que se oferece não é uma partilha, mas uma terceirização da miséria. Uma força simbólica para patrulhar um território cada vez menor, enquanto o ocupante se expande. Cada contingente, claro, precisará da aprovação israelense, um carimbo que transforma a soberania alheia em permissão. Não se trata de estabilizar Gaza, mas de estabilizar a imagem de uma ocupação que, após dois anos de ofensiva, precisa de um verniz de legitimidade. A força internacional não chega para proteger os palestinos, mas para proteger o Ocidente da imagem insuportável do que se permitiu criar.
A aprovação da medida é um ato de teatro político encenado para uma plateia específica, a da Casa Branca. É a performance da pacificação em meio a ataques militares quase diários. A verdadeira notícia não é a chegada de duzentos soldados, mas a formalização de um enclave dentro do enclave, uma zona humanitária vigiada que serve para administrar os corpos, não para lhes devolver a dignidade. O que se desenha não é o mapa de uma futura paz, mas a planta baixa de um controle perpétuo.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Israel aprova entrada de força de segurança internacional em Gaza
Fontes: g1 · Folha de S.Paulo · UOL