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Empresários russos e ucranianos negociam acordo de paz no Kremlin

Empresários russos e ucranianos se encontram no Kremlin para discutir um possível acordo de paz entre os países.

Empresários russos e ucranianos negociam acordo de paz no Kremlin
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A cena no Kremlin tem o peso do absurdo e a leveza do inevitável. Vladimir Putin, diante de Steve Witkoff e Jared Kushner — dois homens do setor imobiliário, não da diplomacia de carreira —, classifica como “difícil” a situação a ser abordada. É um eufemismo que soa quase terno, vindo do homem que ordenou a invasão da Ucrânia. A diplomacia, por um momento, não é mais o ofício de embaixadores formados em corredores ministeriais, mas uma transação entre magnatas que veem o mundo como um portfólio de ativos. Um deles em chamas.

O gesto de Putin — ordenar uma pausa de três dias nos ataques a Kiev — é um espetáculo calculado, uma concessão tática que lhe custa pouco e rende muito. Ele se posiciona como um interlocutor razoável, disposto a ouvir a proposta que Donald Trump acena ter, mas cujos detalhes permanecem um mistério. A Rússia, diz o Kremlin, fará de tudo para garantir a segurança dos mediadores. A frase é uma obra-prima de inversão: o incendiário se oferece como fiador da segurança do bombeiro.

Para entender o encontro, é preciso ignorar a liturgia da paz e olhar para a natureza dos homens sentados à mesa. Trump, Kushner e Witkoff partilham uma linguagem que transcende fronteiras e ideologias: a do negócio. Acreditam que qualquer problema, mesmo uma guerra que redefiniu as fronteiras do pós-Guerra Fria, pode ser resolvido com o acordo certo, a alavancagem correta, o aperto de mão no momento oportuno. É a lógica de quem compra e vende edifícios aplicada à geopolítica. O que está em jogo não é a autodeterminação de um povo, mas o fechamento de um negócio que se arrasta há tempo demais, com custos crescentes para o balanço americano.

O cansaço e o pragmatismo

A disposição ucraniana em se abster de atacar Moscou durante a visita sinaliza, por outro lado, o esgotamento. Volodymyr Zelenskiy sabe que a continuidade do apoio ocidental não é um dado, mas uma variável política, especialmente com Trump no poder. Aceitar a mediação, ainda que venha de um ator tão imprevisível, é um ato de pragmatismo forçado pela exaustão do front e pela incerteza da retaguarda. Se o caminho para a paz — ou para uma pausa que se pareça com ela — passa por um encontro no Kremlin com dois empresários de Nova York, Kiev não está em posição de recusar a passagem.

É uma leitura, claro, que subestima a resiliência ideológica dos atores e o peso da história que os precede. Mas os fatos são teimosos. A pausa nos ataques, a conversa descrita como “benéfica” por Putin, o silêncio sobre os termos do suposto plano de paz. Tudo sugere menos uma cúpula pela soberania e mais um conselho de administração para discutir o encerramento de uma operação deficitária.

Os enviados agora vão para Kiev. O que levarão na pasta, além dos “melhores votos” de Trump? A paz dos homens de negócios tem um preço. Resta saber quem vai pagá-lo.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Putin recebe enviados dos EUA em Moscou e discute paz na Ucrânia

Fontes: CNN Brasil · UOL