A paz de Trump, essa máquina de guerra
Análise · Clara Verdi A ameaça não é mais o ponto. A ameaça, no vocabulário de Donald Trump, tornou-se o próprio método — a gramática…
Análise · Clara Verdi
A ameaça não é mais o ponto. A ameaça, no vocabulário de Donald Trump, tornou-se o próprio método — a gramática de uma diplomacia que fala primeiro com o punho para depois estender a mão, ainda fechada. A fala ao site Axios, onde ele acena com uma “ação militar forte” caso as “negociações muito profundas” com o Irã fracassem, não é o prelúdio de uma decisão, mas a própria performance do poder. A guerra como espetáculo permanente, mesmo quando os bombardeiros estão no chão.
O teatro é evidente. De um lado, o presidente americano que ora fala em conversas avançadas, ora em munição de sobra; do outro, Teerã, que nega qualquer negociação direta e afirma, pela voz do seu porta-voz Esmaeil Baghaei, que jamais permitirá aos Estados Unidos o luxo de determinar “o momento da guerra e da paz”. A contradição não é um ruído na comunicação; é a mensagem em si. Uma assimetria onde um lado precisa encenar controle absoluto para sua audiência doméstica, e o outro, resistência soberana para a sua.
Nesse palco, os fatos que importam são os que vazam pelas coxias. A imprensa americana, citando o New York Times, sugere que a pausa nos ataques aéreos americanos não foi um gesto magnânimo, um espaço aberto ao diálogo, como quer a Casa Branca. Foi, ao contrário, uma necessidade logística: uma escassez de baterias de defesa Patriot. A paz, se é que se pode usar a palavra, não nasceria da vontade, mas da falta de meios para sustentar a guerra e, crucialmente, para se defender da retaliação que viria. A máquina engasga, e o piloto chama isso de prudência.
Para quem observa de longe, a dança parece perigosa e ensaiada. Trump precisa do inimigo externo para consolidar sua imagem interna, mas não pode arcar com o custo de uma guerra total. O Irã, por sua vez, resiste à capitulação, ciente de que negociar sob ameaça é o primeiro passo da rendição. O que resta é o que se viu na segunda-feira: um blefe televisionado, uma guerra de palavras que substitui a de mísseis, onde a única coisa que avança de fato é a instabilidade.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Trump alerta para "ação militar forte" se negociações com Irã falharem
Fontes: g1 · CNN Brasil