A paz americana, de porta em porta
Análise · Clara Verdi A diplomacia que importa não acontece mais nos salões, mas em quartos de hotel.
Análise · Clara Verdi
A diplomacia que importa não acontece mais nos salões, mas em quartos de hotel. No domingo, Jared Kushner está no Cairo com o novo líder do Hamas; na segunda, em Jerusalém, com Benjamin Netanyahu. A sequência dos encontros, sua proximidade, sua quase clandestinidade, diz mais sobre o poder americano do que qualquer comunicado oficial.
Kushner, genro e emissário, carrega um plano que envelhece mal. A proposta, aceita em princípio por Israel e Hamas no ano passado, previa uma troca calculada: o desarmamento progressivo de um lado, a retirada das tropas do outro, com uma força internacional para preencher o vácuo. Uma partitura complexa que exige confiança mútua. Em Gaza, confiança é uma ruína a mais.
O gesto de sentar-se à mesa com Khalil al-Hayya, sucessor de um homem morto por Israel há menos de um ano, é um ato de pragmatismo brutal. É o reconhecimento de que o poder, mesmo quando se manifesta pela violência, precisa ser administrado. Os americanos, como os romanos, sempre souberam conversar com os bárbaros às portas do império. O problema é quando o aliado dentro dos muros se torna o principal obstáculo.
Netanyahu joga para sua plateia interna. Com eleições marcadas para 27 de outubro e as pesquisas desfavoráveis, qualquer concessão soaria como fraqueza. Sua recusa pública ao plano que seu próprio governo já aceitou é teatro político para o eleitorado, não uma posição estratégica para o Estado. Ele exige o desarmamento total antes de mover um único soldado. É uma demanda pelo impossível, uma forma elegante de dizer não.
Enquanto isso, o enviado de Trump, Nickolay Mladenov, ex-funcionário da ONU, tenta costurar os pedaços. Ele representa uma ordem que já não existe, a do consenso internacional. A realidade é que a paz, se vier, será imposta por Washington, negociada em separado com cada ator, como quem fecha contratos individuais.
A América não preside mais uma mesa de negociações. Ela vai de porta em porta, vendendo seu plano. Para um lado, oferece a legitimidade do diálogo; para o outro, o peso de sua aliança. Resta saber se ainda há quem queira comprar.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Genro de Trump encontra líder do Hamas e Netanyahu sobre plano
Fontes: Folha de S.Paulo · UOL