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A paz adiada de Netanyahu

Análise · Clara Verdi O poder tem seu próprio calendário.

A paz adiada de Netanyahu
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

O poder tem seu próprio calendário. Neste domingo, o calendário de Benjamin Netanyahu e o da paz em Gaza mais uma vez não coincidiram. O primeiro-ministro israelense comunicou que rejeita o plano costurado por Donald Trump, um plano de 15 pontos que previa o que todos dizem querer: o desarmamento do Hamas e o fim da guerra. A recusa não é um mero detalhe diplomático. É a gramática de um homem que governa medindo a distância entre sua sobrevivência política e o custo humano de uma guerra que se recusa a terminar.

O acordo, que contava com o aval do próprio Hamas — condicionado, é claro, a uma força internacional de estabilização e ao cumprimento israelense do cessar-fogo estabelecido em outubro passado —, representava o tipo de avanço que presidentes americanos gostam de anunciar. Trump o anunciou. Mas Netanyahu não é um ator coadjuvante no roteiro de Washington. Muito menos em meio a uma acirrada corrida eleitoral em seu país. A rejeição ao plano americano é uma mensagem para dentro, um gesto calculado para a sua base, para quem qualquer acordo que não seja a rendição incondicional soa como fraqueza.

Há uma coreografia macabra nos comunicados oficiais. Trump anuncia um avanço; o Hamas confirma que deporia as armas sob certas condições; Netanyahu responde que não retirará suas forças até que o último fuzil do inimigo se cale. Enquanto isso, os ataques a Gaza continuam, ignorando o cessar-fogo que no papel já dura quase um ano. A paz torna-se uma abstração, uma palavra esvaziada pela realidade dos bombardeios e pela urgência eleitoral de um líder político.

A aliança entre Netanyahu e Trump sempre foi mais transacional do que ideológica, um casamento de conveniências entre dois homens que entendem o poder como um exercício de força pessoal. Agora, a conveniência de Netanyahu é outra. É a de se mostrar inflexível, o único capaz de garantir a segurança de Israel pela via militar, mesmo que isso signifique se distanciar publicamente de seu mais notório aliado na Casa Branca. O acordo poderia encerrar a guerra, mas talvez encerrasse também sua carreira política.

O que resta, então, quando a palavra de um presidente americano não basta e a disposição de um inimigo em se desarmar é ignorada? Resta a guerra, com sua lógica própria e seu tempo que devora vidas. E a pergunta que paira sobre o deserto: quantas outras ofertas de paz precisarão ser rejeitadas até a próxima eleição?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Netanyahu rejeita plano de paz dos EUA para Gaza neste domingo (9)

Fontes: CNN Brasil · UOL