World Surf League cancela etapa no deserto de Abu Dhabi
A World Surf League cancelou a etapa no deserto de Abu Dhabi, levantando discussões sobre o futuro do surfe.
Análise · Marcos Tibúrcio
O comunicado da World Surf League chegou como chegam as notas oficiais: com a burocracia das palavras certas para descrever um corpo que esfriou. A etapa de Abu Dhabi, fincada no deserto, foi retirada do calendário de 2026 por “limitações logísticas”. Assim, sem nome e sobrenome. Logística é uma palavra fria para explicar o que o mar ensina com fúria: nem tudo que se planeja vinga.
Havia um plano. Uma onda mecânica, perfeita e previsível, no coração dos Emirados Árabes. Um espetáculo televisionável, imune às marés e aos humores de Iemanjá. Mas o surfe, em sua essência, não é sobre controle. É sobre a conversa entre o homem e o imprevisível. Um diálogo que a planilha dos executivos tentou roteirizar e que a vida — ou a “situação atual na região”, como prefere a WSL — tratou de rasurar.
O surfe profissional vive este dilema. De um lado, o chamado da natureza, a busca pela onda perfeita em Fiji ou no Havaí, onde se forjam os campeões. Do outro, a tentação do produto embalado, da arena climatizada, da certeza de que haverá show na hora marcada. Abu Dhabi era a materialização desta segunda via. Uma aposta na engenharia contra a poesia. Por enquanto, a poesia venceu por W.O.
Para os nossos, o cancelamento muda pouco na prática. O circo segue para Trestles, na Califórnia. O ranking ainda tem quatro brasileiros entre os cinco melhores, uma esquadra liderada pela fome de Medina e pela coroa recente de Yago Dora. O domínio é tão evidente que o cancelamento de uma etapa parece apenas um detalhe, um desvio de rota no mapa de uma conquista anunciada. Talvez seja. Ou talvez o episódio sirva de aviso, um lembrete sutil de que o esporte tem alma e que esta alma, às vezes, recusa certos palcos.
O que restará da etapa que nunca aconteceu? Apenas uma linha riscada num calendário e a imagem de uma onda artificial esperando por surfistas que jamais chegarão. Uma onda órfã, quebrando sozinha no meio do deserto, sem ninguém na areia para aplaudir ou vaiar.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge