A nova geografia do futebol tem nome e sobrenome
Análise · Marcos Tibúrcio Um mapa se rasga, outro se desenha em seu lugar.
Análise · Marcos Tibúrcio
Um mapa se rasga, outro se desenha em seu lugar. Enquanto a Europa do futebol feminino — a das campeãs mundiais, das norueguesas de 1995, das inglesas de hoje — ainda se digladia por vagas nos playoffs, o norte da África já carimbou dois passaportes para o Mundial do Brasil. E o fez com a autoridade de quem não pede licença para entrar na festa. Argélia e Marrocos estarão na Copa de 2027. Não por sorteio. Por direito de campo.
Sábado, em Rabat, o Marrocos jogou em casa. E a casa, como deve ser, empurrou. Do pé direito de Hanane Ait El Haj, a lateral, saiu a geometria do primeiro gol, servido para Sakina Ouzraoui. Depois, da marca da cal, a mesma Hanane estufou a rede. Era a senha da classificação, a segunda consecutiva para um Mundial. Chegaram às oitavas em 2023. Quem duvida que agora olham além?
Horas antes, a Argélia. Esta, uma estreante. E toda estreia carrega a força bruta do inédito. Diante da Costa do Marfim, as argelinas fizeram o que o manual da arquibancada ensina: venceram. Um 2 a 1 que não entra para a história apenas como um placar, mas como a certidão de nascimento de uma seleção em Copas do Mundo. Pela primeira vez. O futebol tem dessas coisas: para cada gigante que sua para se manter no topo, um novato descobre que também sabe voar.
O futebol de seleções não é mais um clube fechado de potências europeias e uma ou outra sul-americana. A bola, essa caprichosa, aprendeu novos sotaques, descobriu novos terrenos. O que se viu no Magrebe neste fim de semana não é um evento isolado; é um sintoma. Um sintoma de que a força do jogo migrou, se espalhou, democratizou-se à força.
A Espanha, atual campeã, a Alemanha, a França, todas já garantiram seus lugares. Mas a Inglaterra, vice-campeã do último Mundial, a Holanda, a Noruega — todas ainda penam por um lugar ao sol. A velha ordem se distrai e a nova ordem avança.
Em 2027, quando a bola rolar no Brasil, o mapa-múndi do futebol feminino terá contornos diferentes. Terá o sotaque árabe de Rabat e de Argel. E terá, acima de tudo, a prova de que o centro de gravidade do jogo já não é mais onde sempre esteve.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge