A nova fronteira do Desenrola
Análise · Ricardo Mendes Juros de até 1,99% ao mês. O número define a nova fase do programa Desenrola, agora voltada não aos inadimplentes,…
Análise · Ricardo Mendes
Juros de até 1,99% ao mês. O número define a nova fase do programa Desenrola, agora voltada não aos inadimplentes, mas àqueles que mantêm suas contas em dia, os adimplentes. O nome carrega a contradição que define a política: se não há o que “desenrolar”, o que a medida de fato busca? A resposta está na estrutura do mercado de crédito brasileiro, onde a adimplência, por si só, não garante acesso a condições financeiras sustentáveis, especialmente para o trabalhador informal.
O Desenrola original, lançado em 2023, partiu de uma premissa clássica: a renegociação de dívidas como mecanismo de reinserção de consumidores no mercado. Beneficiou 7,5 milhões de famílias, segundo o governo. A lógica era reativar a capacidade de consumo e de crédito de uma parcela da população excluída pelo endividamento. Era um programa de recuperação.
A fase atual é distinta. Não se trata de resgate, mas de profilaxia econômica. Ao oferecer uma linha de crédito com teto de 1,99% ao mês para trocar dívidas mais caras, o governo atua sobre o custo do endividamento corrente, não sobre a inadimplência passada. É uma intervenção que reconhece um problema estrutural: o informal, mesmo quando bom pagador, está sujeito a taxas que, em muitos casos, tornam o futuro default quase inevitável. Ele paga em dia, mas paga caro.
O valor que a gente defende no Desenrola é o pagamento, em dia, das contas.
A frase de Dario Durigan, do Ministério da Fazenda, é a chave para compreender a mudança de foco. A política de crédito se desloca do passivo para o ativo, do problema instalado para sua prevenção. A iniciativa visa preservar a condição de adimplência, barateando o custo de carregamento da dívida para quem demonstra compromisso com suas obrigações.
O risco, como sempre, está na calibragem e nos efeitos de segunda ordem. Uma política de crédito direcionado pode criar distorções, e sua eficácia depende da adesão das instituições financeiras — cuja participação, informa o governo, exigiu “ajustes nas regras”. O alerta sobre golpes e anúncios fraudulentos, com centenas de casos identificados, também revela a vulnerabilidade do público-alvo e a complexidade da execução. O Estado oferece a porta, mas não controla todos que se aglomeram em seu entorno.
O Brasil que emergiu da estabilização da moeda ainda busca caminhos para a estabilização da vida financeira de sua população. O Desenrola Adimplentes é mais um capítulo dessa busca. Deixou-se de apenas remediar a inadimplência para tentar evitar que ela aconteça. A questão que permanece é se o tratamento preventivo será suficiente para alterar a rota de quem caminha na corda bamba do crédito caro.
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Desenrola Adimplentes oferece juros de até 1,99% ao mês
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.