Bolívia sofre com nevascas atípicas em La Paz
Nevascas atípicas transformam paisagem urbana de La Paz e revelam desafios climáticos na Bolívia.
Análise · Clara Verdi
A imagem tem a banalidade do transtorno: carros numa rodovia, flocos brancos contra o asfalto escuro nos arredores de La Paz. É uma fotografia da agência Reuters, assinada por Claudia Morales. Poderia ser uma estrada alpina em um fevereiro qualquer, um engarrafamento nos Apeninos. É a Bolívia, sob uma nevasca que a Defesa Civil do país chama de incomum.
Vinte mil famílias desabrigadas. Oitenta e duas mil afetadas. Os números chegam frios e abstratos, telegramas de uma calamidade distante que não se encaixa nas narrativas que a Europa consome sobre o clima. As ondas de calor que cozinham Roma e Paris, as inundações que devastam vilarejos na Alemanha — essas são as catástrofes inteligíveis, as que alimentam os debates sobre o Antropoceno nos jornais de referência e justificam as cúpulas em Bruxelas. Neve fora de lugar em Potosí, aulas suspensas em Oruro, o aeroporto de La Paz paralisado: a anomalia é tão distante que mal registra como anomalia. Torna-se apenas tempo ruim.
Há uma hierarquia da atenção, claro, e o mapa dessa hierarquia raramente coincide com o mapa da dor. A neve boliviana, que também é chuva e inundação em La Paz, Potosí e Cochabamba, não tem o mesmo peso simbólico da seca no vale do Pó ou do incêndio numa ilha grega. Falta-lhe o espelho. Falta-lhe a capacidade de assustar o leitor em Milão ou em Lyon com um vislumbre do seu próprio futuro. A desgraça do outro só se torna verdadeiramente notícia quando nos serve de advertência.
Esta análise, por certo, parte de uma leitura incompleta, feita de longe, a partir dos mesmos despachos que ela critica. A dinâmica interna boliviana, a resposta do Estado, a resiliência das comunidades a 4.000 metros de altitude — tudo isso escapa à fotografia e à nota de agência. O que não escapa é o silêncio que se segue ao fato bruto. A notícia chega, mas não reverbera. O dado é informado, mas não interpretado.
E na imagem da rodovia em La Cumbre, o que se perde é o espanto. A neve onde não se espera é uma desordem profunda na linguagem do mundo. Uma advertência em uma língua que nos esquecemos de escutar. Quantas neves silenciosas serão precisas para que a conversa mude de tom?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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