Eleitor lota urna, mas presidenciáveis isolam-se no palanque
A eleição de 2022 demonstra o paradoxo entre a participação popular nas urnas e o distanciamento dos presidenciáveis da população.
Análise · Beatriz Fonseca
Treze nomes disputarão a Presidência da República. No Acre, oito candidatos concorrem a duas vagas no Senado. No início formal da campanha eleitoral, em 16 de agosto, a matemática do sistema político parece indicar uma coisa, e a geografia dos atos de rua, outra: a profusão de candidaturas convive com uma concentração de poder que poucos partidos decidiram enfrentar.
A lista de presidenciáveis, protocolada no Tribunal Superior Eleitoral até o sábado, 15 de agosto, inclui desde os líderes em intenção de voto — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), que iniciaram suas campanhas em São Bernardo do Campo e Copacabana, respectivamente — até candidaturas como a de Pablo Marçal, cujo registro pelo PRTB depende de análise final do TSE.
Contudo, a pluralidade de opções na urna contrasta com o movimento de neutralidade adotado por legendas de peso. Republicanos, a federação União Progressista (União Brasil e Progressistas) e o MDB anunciaram que não apoiarão formalmente nenhuma candidatura ao Palácio do Planalto. Liberaram seus diretórios estaduais. É uma decisão que reconhece a fragmentação do país e, ao mesmo tempo, aprofunda-a. Os palanques estaduais terão composições que o palanque nacional não comporta.
A renúncia ao projeto nacional
Na minha leitura, esta não é apenas uma estratégia de sobrevivência eleitoral. É a confissão de uma dificuldade, talvez uma renúncia, em construir um projeto de dimensão nacional. Ao se declararem neutros, estes partidos admitem que não há, em nenhuma das treze opções, uma proposta capaz de unificar suas bases ou que o custo de se aliar a um dos polos principais é maior que o benefício. O poder se torna um agregado de projetos locais, não o resultado de uma visão para o país.
A fotografia do dia 4 de outubro, data do primeiro turno, ainda está fora de foco. A estrutura partidária, que deveria organizar o dissenso e apresentar caminhos, parece ter escolhido, em parte, apenas administrar o mapa. Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) terão tempo de televisão e assento nos debates, como o primeiro, marcado para 23 de agosto. Terão a oportunidade de testar se existe um eleitorado para além da polarização manifesta.
Resta saber se a neutralidade dos partidos grandes será um vazio a ser preenchido por uma via alternativa ou se apenas servirá para isolar ainda mais os dois candidatos que lideram as pesquisas. A campanha não começou para treze. Para muitos, ela começou como um esforço para não ter de escolher.
Beatriz Fonseca — Política nacional — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Treze candidatos disputam Presidência; Acre tem oito ao Senado
Fontes: BBC News Brasil · CNN Brasil