Deslizamento de terra em vale suíço atinge cidade e causa destruição
Tragédia na Suíça: imagens chocantes mostram o momento em que um deslizamento de terra avança sobre o vale, ameaçando moradores. Entenda o impacto.
Análise · Clara Verdi
As imagens chegaram na quarta-feira: uma parede de água, rocha e terra descendo o vale, pessoas correndo. A coreografia do desastre, televisionada e instantânea. A primeira explicação foi a mais simples, a que nos conforta com sua familiaridade geológica: um terremoto de 4,4 na escala Richter. Uma fúria da terra, imprevisível e portanto indesculpável. Um evento. Fecham-se aspas.
A ciência, porém, é menos apressada que o noticiário. O Serviço Geológico dos Estados Unidos inverteu a narrativa. Não foi o tremor que causou o deslizamento; foi o colapso de uma geleira que provocou o tremor. A montanha se desfez por dentro. O gelo que deveria ser eterno cedeu, represou o rio Lhende Khola e depois, incapaz de conter a própria força acumulada, liberou a catástrofe sobre a passagem de Gyirong, sobre as casas, sobre os turistas e os locais.
Uma outra natureza
Esta inversão na causalidade não é um detalhe técnico para geólogos. É o centro da questão. Um terremoto pertence a uma ordem de acontecimentos que nos excede, que fala de placas tectônicas e de um tempo profundo que não controlamos. O colapso de uma geleira, embora igualmente natural, fala de um tempo mais recente, o nosso. Um tempo de aquecimento e instabilidade em terrenos que se acreditavam permanentes.
O Himalaia não é apenas uma paisagem para postais ou um desafio para alpinistas. É uma região acidentada, vulnerável, de equilíbrios delicados entre gelo, rocha e água. Onde quase cem mil pessoas vivem sob o olhar de gigantes que parecem adormecidos. A hipótese do USGS, ainda que à espera de confirmação científica rigorosa, desloca a avalanche da categoria de "acidente" para a de "consequência". Muda tudo.
É um erro de perspectiva ver estas mortes como uma tragédia distante, exótica. Elas são um prólogo.
Enquanto quase cinco mil pessoas cavam a lama em busca de corpos, o resto do mundo assiste às imagens e conta os mortos — seiscentos, talvez dois mil. O número crescerá, depois se estabilizará e por fim será esquecido, substituído pelo próximo despacho de agência. Mas a pergunta que o colapso da geleira nos impõe não desaparecerá com o ciclo de notícias.
Se a montanha que parecia imutável se desfaz, qual a solidez do chão que pisamos nós, aqui, do outro lado do mundo?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
Leia o factual: Avalanche no Himalaia deixa 600 mortos e 2 mil desaparecidos
Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil