Terremoto na Islândia revela perigos da atividade sísmica
Um tremor de 4.4, raso, a dez quilômetros da superfície, mostrou que a terra islandesa está em constante transformação.
Análise · Clara Verdi
Um tremor de 4.4, raso, a apenas dez quilômetros da superfície: a energia da terra chega quase intacta, sem se dissipar no caminho. A montanha não absorve o golpe, ela o devolve. Devolveu-o na forma de gelo, rocha e lama sobre o rio Lhende Khola, na fronteira do Nepal com o Tibete. Cinquenta e cinco corpos encontrados, por enquanto. A contagem dos desaparecidos, como sempre nestes casos, é uma ficção que se atualiza a cada hora.
A atenção da imprensa se detém na mecânica do desastre, na imagem de satélite que mostra o antes e o depois — a cicatriz marrom rasgada na paisagem verde. É um fascínio técnico, quase asséptico, que explica como uma represa improvisada de detritos agora ameaça romper-se novamente, rio acima, e como o alerta de cheias desce centenas de quilômetros até as planícies da Índia, em Bihar e Uttar Pradesh. A geografia como destino, ensinada por uma avalanche. A explicação é necessária, mas não é suficiente. Ela não dá conta da história que se rompeu ali.
O que se rompeu foi mais que uma encosta. Foi uma artéria. O porto de Gyirong, uma das poucas passagens terrestres importantes entre a China e o Nepal, foi atingido, cortando estradas e comunicações. E com ele, os viajantes. Duzentos e noventa e um estrangeiros estão entre as centenas de pessoas cujo paradeiro é desconhecido. Eram turistas, talvez alpinistas, talvez parte daquele circuito de ocidentais que buscam no Himalaia uma transcendência que suas próprias metrópoles não oferecem mais. Buscavam a paisagem imponente, a fotografia perfeita, o encontro com o sublime. Encontraram a geologia em seu estado mais indiferente.
Não há culpados evidentes neste evento, o que o torna ainda mais perturbador para a sensibilidade contemporânea que precisa sempre de um réu. A montanha simplesmente se moveu. O que se pode ou não dizer sobre o preparo das autoridades locais para um evento desta escala é uma leitura que ainda não temos como fazer; a poeira, literalmente, ainda não baixou. O que se vê, por ora, é o encontro brutal entre a fragilidade humana — das casas, das pontes, dos projetos de energia, dos corpos — e a potência de uma natureza que não negocia.
No fim, a imagem que importa não é a do satélite, mas a ausência de imagem: a dos rostos dos desaparecidos, a das vidas interrompidas por uma força que antecede mapas, fronteiras e as rotas turísticas que teimam em tratá-la como cenário. Onde termina a aventura e começa a tragédia?
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: g1 · CNN Brasil