Desastre em montanha mata trezentos e deixa centenas de desaparecidos
Tragédia em montanha causa trezentos mortos e centenas de desaparecidos de 28 nacionalidades.
Análise · Clara Verdi
Trezentos mortos, centenas de desaparecidos, vinte e oito nacionalidades varridas pela mesma onda de lama e pedra. Os números chegam do Nepal e do Tibete como um despacho de guerra, mas a guerra aqui não tem exércitos. O inimigo é o gelo que se solta, a rocha que cede, o rio que transborda com a fúria de quem foi represado por um instante e se vinga por quilômetros. É uma violência geológica, indiferente aos passaportes de suas vítimas — turistas, peregrinos, moradores —, unidos em um desaparecimento comum a 64 quilômetros de Katmandu.
A hipótese dos cientistas, um relato quase mitológico de uma avalanche que bloqueia um rio e depois se rompe, reconstrói a mecânica do desastre. Mas a mecânica não explica a comoção seletiva. Uma catástrofe desta ordem, se ocorresse nos Alpes ou nos Pirineus, paralisaria o noticiário europeu por dias. As mesmas imagens de prédios tragados pelo barro seriam dissecadas em edições especiais, e a ajuda internacional seria o primeiro tópico de qualquer cimeira. No Himalaia, a tragédia é distante. Trágica, sim, mas exótica, quase parte da paisagem indomável que os turistas foram precisamente procurar. A montanha que dá a beleza é a mesma que mata. Fim da história.
O que se perde neste enquadramento é a política, que nunca está ausente. As declarações de prontidão dos líderes vizinhos — Xi Jinping prometendo sistemas de alerta, Narendra Modi oferecendo ajuda humanitária — são gestos esperados no tabuleiro da influência regional. A China e a Índia disputam cada metro de poder simbólico na cordilheira, e a solidariedade é também uma ferramenta. O primeiro-ministro nepalês, Balendra Shah, promete coordenar a resposta com a China, um aceno geopolítico no meio da dor. A nação está em choque, ele diz, mas o Estado precisa de parceiros.
Enquanto os especialistas tentam perfurar as nuvens de monções com seus satélites para montar o quebra-cabeça do que aconteceu, uma verdade incômoda emerge. A fragilidade não é apenas do solo ou do gelo. A vulnerabilidade é humana, social, econômica. Os sistemas de monitoramento prometidos por Pequim são a admissão de uma ausência. A infraestrutura destruída — estradas, edifícios — revela a precariedade da ocupação em uma das geografias mais hostis do planeta. A ciência pode, eventualmente, nos dizer o local exato do deslizamento; ela não nos dirá, porém, quantas dessas mortes poderiam ter sido evitadas com algo além de declarações posteriores à queda da primeira pedra.
Na Europa, discutimos a subida de um grau no termômetro como uma abstração financeira, um custo a ser gerido. No teto do mundo, a abstração vira uma parede de lama. O que resta saber, quando as águas do Bhote Koshi baixarem, é se o que virá depois será reconstrução ou apenas a preparação silenciosa para a próxima vez que a montanha decidir se mover.
Clara Verdi — Europa. Xaplin.
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Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil