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Avalanche atinge montanha e causa alerta

O som da avalanche ecoa na montanha. Analisamos o comunicado de alerta emitido.

Avalanche atinge montanha e causa alerta
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A avalanche vem primeiro como um som, depois como uma imagem. A cordilheira do Himalaia, cenário de postais e catálogos de aventura para um certo tipo de europeu, devolveu ao vale o que não lhe pertencia: uma massa de gelo, pedra e fúria que já matou 270 pessoas e soterrou mais de mil e trezentas outras sob um silêncio de lama. O desastre tem um epicentro geográfico, na fronteira entre o Nepal e a China, mas sua ressonância é global — não apenas pela escala da tragédia, mas pelo passaporte de quase oitocentos dos desaparecidos.

Estrangeiros. Quinhentos e dezessete no lado nepalês, duzentos e sessenta no chinês. A palavra ecoa nos despachos das agências de notícias e ativa os protocolos em Bruxelas e Washington. Um desastre natural em um país distante é uma nota de rodapé; um desastre natural com cidadãos europeus na lista de vítimas é uma crise diplomática e humanitária que exige resposta. A União Europeia anuncia planos de ajuda. A Índia também. Os Estados Unidos enviam recursos. A máquina da compaixão internacional, oleada e previsível, começa a girar. Lenta, mas começa.

Essa coreografia da ajuda esconde uma assimetria fundamental. A mesma montanha que para uns é a fronteira final da experiência e do autoconhecimento, o lugar onde se vai para se encontrar, é para outros simplesmente o lugar onde se vive e se morre. Para as famílias em Gyirong, o drama não tem a aura do exotismo ou da aventura que deu errado; tem o peso concreto da infraestrutura destruída, do parente que não atende o telefone, da espera por um helicóptero que não consegue pousar. O desespero deles não depende de confirmação consular.

É possível, claro, que esta leitura seja demasiado cínica, que a prontidão da ajuda ocidental seja apenas o que é: um gesto de solidariedade genuíno diante da catástrofe. Mas é difícil ignorar o mecanismo. A atenção mediática, o fluxo de recursos, a mobilização política — tudo parece calibrado pela presença daqueles corpos que não deveriam estar ali. A morte anônima de um nepalês pesa diferente da morte de um turista com seguro de viagem e uma embaixada vigilante.

Enquanto as equipes de resgate chinesas abrem caminho entre os escombros e os helicópteros nepaleses buscam um palmo de terra firme para pousar, os comunicados de imprensa são redigidos em Bruxelas. O texto falará em solidariedade, em apoio, em valores comuns. A montanha, indiferente à burocracia e à retórica, guarda seus mortos. Quantos comunicados serão necessários para alcançá-los?

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Nepal tem 270 mortos por enchentes e 1.384 desaparecidos

Fontes: CNN Brasil · UOL