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Meteorologia vira boletim de ocorrência com eventos extremos

Eventos climáticos extremos transformam meteorologia em boletim de ocorrência, exigindo atenção urgente das autoridades.

Meteorologia vira boletim de ocorrência com eventos extremos
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Luciano Aragão

Enquanto em Brasília a temperatura mínima bate nos 17°C, no sul do país um vento de 100 quilômetros por hora testa a infraestrutura e a paciência de três estados. O alerta laranja emitido pelo Instituto Nacional de Meteorologia para esta sexta-feira não é mais um informe técnico lido entre o café e a primeira reunião do dia. Virou um documento político.

O texto do Inmet descreve chuvas, trovoadas e granizo sobre o Paraná, Santa Catarina e, crucialmente, o Rio Grande do Sul. Para uma região que ainda calcula os prejuízos da última catástrofe, a previsão do tempo deixou de ser um serviço e se tornou um protocolo de crise. Cada aviso de perigo potencial agora mede a capacidade de resposta dos governos — federal, estaduais e municipais — e a resiliência de quem perdeu tudo há poucas semanas.

O Brasil vive um paradoxo geográfico e administrativo. Enquanto o oeste da Bahia e o sul do Piauí recebem alertas de baixa umidade, quase desertificação, o sul se prepara para mais água. Um país de dimensões continentais, administrado com ferramentas que parecem enxergar apenas o perímetro da Esplanada dos Ministérios. A fragmentação dos alertas — um para o vendaval em Mato Grosso do Sul, outro para a chuva no Amazonas, um terceiro para o nevoeiro no Rio de Janeiro — revela um mapa de vulnerabilidades que a gestão pública raramente consegue unificar numa estratégia coesa.

Pode-se argumentar, com alguma razão, que eventos climáticos extremos são parte de uma nova normalidade global. O que a repetição dos alertas no Sul expõe, no entanto, é a fragilidade de uma máquina pública mais ágil para anunciar pacotes de ajuda do que para executar planos de prevenção. A burocracia para liberar recursos ainda compete com a velocidade com que as nuvens se formam.

A previsão máxima em Curitiba é de 30°C; em Cuiabá, 39°C. Números que dizem pouco sozinhos. Quando o mesmo boletim prevê granizo onde antes havia enchente, o dado se transforma em um índice de ansiedade coletiva.

Nesta sexta-feira, os radares do Inmet serão mais observados que muitas cotações da bolsa. E cada município atingido será um novo teste para discursos oficiais que prometeram reconstrução. Afinal, quantas vezes uma emergência precisa se repetir antes de deixar de ser tratada como um evento inesperado?

Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.

Leia o factual: Sul em alerta para chuvas e ventos de 100 km/h nesta sexta (28)

Fonte: Agência Brasil