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A memória curta da epidemia

Análise · Dra. Camila Torres Vinte e quatro casos. Em um país de 200 milhões, o número parece uma nota de rodapé estatística, um ruído.

A memória curta da epidemia
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

Vinte e quatro casos. Em um país de 200 milhões, o número parece uma nota de rodapé estatística, um ruído. Mas para um epidemiologista, 24 casos de sarampo são como o primeiro tremor que precede o terremoto. Uma doença que considerávamos história, contida nos livros de medicina e na memória muscular do sistema de saúde, volta a respirar entre nós. São Paulo concentra 23 desses diagnósticos, sete deles surgidos em apenas quatro dias. O vírus não pede licença.

A situação espelha uma fragilidade que não é só nossa. Os Estados Unidos enfrentam seu maior surto em 35 anos. O sarampo viaja, pega carona em aviões, atravessa fronteiras junto com as lembranças de férias ou os gritos de gol da Copa do Mundo. Dois de nossos casos foram diretamente importados; os outros, vinculados a essa importação. O vírus chega de fora, mas encontra aqui o terreno fértil para se instalar: bolsões de pessoas não vacinadas, brechas na armadura coletiva que construímos com décadas de campanhas.

Lembro dos postos de saúde nos meus anos de SUS, da rotina exaustiva e sagrada de checar cadernetas de vacinação. Aquilo era o front. Cada agulha, uma vida protegida; cada carteirinha em dia, um tijolo no muro que nos separava de surtos como este. Esse muro, antes sólido, hoje exibe rachaduras. A queda na vacinação, alimentada por desinformação, é uma dessas fissuras. Uma preferência cultural, a da desconfiança, que colide diretamente com a evidência clínica da imunização.

Um alarme, não uma derrota

A vigilância epidemiológica funciona. Os casos foram identificados, rastreados. O bloqueio vacinal, como a orientação em São Paulo, Guarulhos e São Bernardo do Campo de vacinar todos de seis meses a 59 anos, é a resposta correta e enérgica. O Brasil recuperou este ano, não sem esforço, o certificado de eliminação do sarampo. Flávia Bravo, da Sociedade Brasileira de Imunizações, pondera que ainda não arriscamos perdê-lo. É um sinal de alerta, ela diz. É o que se diz antes que o alarme vire sirene.

Os casos foram identificados, rastreados, feito o bloqueio. Mas é um sinal de alerta.

O sucesso do passado nos tornou complacentes. Esquecemos como é o rosto de uma criança com sarampo, o som de sua tosse, o risco real de pneumonia, de dano cerebral. A doença, para muitos, virou uma abstração. Estes 24 casos, no entanto, são concretos. São 24 famílias em isolamento, 24 histórias de contágio, 24 lembretes de que a imunidade de rebanho não é um direito adquirido. É uma conquista diária, mantida em cada posto de saúde, em cada braço que se estende para a vacina.

O vírus tem uma memória evolutiva de milênios. Nós, ao que parece, temos uma memória de poucos anos. Quanto tempo mais vamos precisar para reaprender a lição?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil registra 24 casos de sarampo, 23 em São Paulo até 7 de agosto

Fontes: Folha de S.Paulo · BBC News Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.