Medicina adota observação em vez de intervenção desnecessária
A prática de "não fazer nada" ganha espaço na medicina, priorizando a observação em vez de intervenções desnecessárias, inclusive na gravidez.
Análise · Dra. Camila Torres
Uma mulher grávida entra no consultório. O exame de sangue mostra que seu corpo produz anticorpos contra a própria tireoide, um sinal de predisposição a problemas futuros. Seus hormônios, no entanto, estão normais. A glândula funciona bem. Até ontem, a conduta de muitos médicos seria iniciar a reposição hormonal com levotiroxina, uma tentativa de proteger a gestação contra riscos de aborto ou parto prematuro. A partir de agora, a melhor prática será outra. Monitorar. E não medicar.
A mudança, anunciada pela Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e pela Federação Brasileira das Associações de Ginecologia e Obstetrícia, é um exemplo raro e elegante de progresso médico. Progredir, às vezes, é recuar. É ter a coragem de abandonar uma prática que se provou ineficaz. Três grandes estudos recentes, que serviram de base para a nova diretriz da Associação Americana da Tireoide publicada em junho, forneceram a evidência que faltava: em mulheres com função tireoidiana normal, o uso preventivo do hormônio sintético não altera os desfechos negativos que se pretendia evitar.
A lógica anterior parecia sólida. A presença do anticorpo anti-TPO aumenta o risco de a gestante desenvolver hipotireoidismo ao longo dos nove meses, condição deletéria para mãe e feto. Antecipar-se ao problema com uma dose profilática de hormônio parecia um zelo justificável. O princípio da precaução em seu estado mais puro. O problema é que a biologia não segue sempre a lógica linear das nossas intervenções. A medicina baseada em evidências existe para testar essas lógicas, e por vezes, para derrubá-las.
O que a nova orientação faz é distinguir com mais nitidez o que é risco do que é doença. Ter o anticorpo positivo, como explicou Cleo Mesa Júnior, da SBEM, é ter uma predisposição. Não é ter hipotireoidismo. Tratar a predisposição como doença estabelecida é medicar em excesso, é submeter uma paciente a uma intervenção sem benefício comprovado. É uma lição de humildade para a prática clínica. A decisão de não fazer nada, quando embasada em boa ciência, é uma ação tão ou mais importante do que prescrever um remédio.
Isto, claro, não significa negligência. A recomendação é clara: o monitoramento continua essencial. Para as mulheres que já tinham hipotireoidismo antes de engravidar, a orientação de aumentar a dose em cerca de 30% permanece intocada. O que se afina é o alvo da intervenção.
O Brasil, ao manter o rastreamento universal no pré-natal, escolhe o caminho mais atento, divergindo do novo protocolo americano. É uma escolha que reflete as particularidades de um sistema de saúde como o nosso, onde garantir o retorno da paciente pode ser um desafio. Resta saber como essa nova diretriz será comunicada nos ambulatórios e absorvida na rotina de um país continental. Quantas gestações deixarão de ser medicalizadas desnecessariamente a partir de uma nota técnica emitida no Rio de Janeiro?
Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Tireoide: gestantes com anticorpos não usarão mais hormônio
Fonte: Agência Brasil
Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.