Inflação corrói valor real do Bolsa Família
O valor nominal de um benefício social é metade da equação; a outra, mais corrosiva, é a inflação.
Análise · Ricardo Mendes
O valor nominal de um benefício social é apenas metade da equação; a outra, mais corrosiva, é a inflação. Ao propor um Orçamento para 2027 que mantém o Bolsa Família em R$ 600, o governo opta por um ajuste fiscal silencioso, que não passa por emendas constitucionais ou negociações ruidosas no Congresso, mas pela perda real de poder de compra das famílias mais vulneráveis.
Os números, dispostos em sequência, revelam a lógica. A dotação para o programa cai de R$ 167,2 bilhões em 2025 para R$ 158,6 bilhões em 2026, chegando a R$ 157,1 bilhões na proposta para 2027. É uma trajetória de redução nominal, um fato raro em despesas obrigatórias. A decisão ocorre em um momento em que o número de beneficiários se mantém estável, próximo de 19,3 milhões de famílias. Menos recursos para um universo de pessoas praticamente idêntico significa, na prática, um benefício menor.
A discussão não é nova, mas a estratégia, sim. Desde seu relançamento em março de 2023, o valor do benefício não sofreu reajuste. A legislação, que permite a correção em até dois anos, é interpretada pelo Executivo como uma autorização, não uma obrigação. É a conversão de uma salvaguarda social em uma válvula de escape fiscal. O governo transfere ao Legislativo o ônus político de lutar por uma recomposição, enquanto a equipe econômica sinaliza sua prioridade: a contenção do avanço das despesas obrigatórias.
A corrosão do poder de compra
Congelar um benefício mínimo em R$ 600 por quatro anos consecutivos é decretar sua redução. A inflação acumulada no período transforma o valor de face em uma miragem. O que se compra com R$ 600 hoje não se comprará em 2027. Para a renda de uma família que tem como baliza o valor de R$ 218 mensais por pessoa, qualquer perda real representa um retrocesso significativo na margem de segurança alimentar e de consumo básico. A estabilidade monetária, legado do Plano Real, foi uma obra civilizatória precisamente por proteger o poder de compra dos mais pobres contra a corrosão inflacionária.
A proposta orçamentária para o programa pode, por certo, ser alterada durante sua tramitação no Congresso. Este é o quadro efêmero da política orçamentária. Contudo, a peça enviada pelo Executivo é a declaração de intenções do formulador da política econômica. Ela expõe uma escolha técnica difícil: diante da pressão sobre as contas públicas, qual despesa cede primeiro?
A resposta contida no projeto de 2027 é clara. Resta saber se esta é uma decisão definitiva ou apenas o ponto de partida de uma negociação sobre quem, ao final, paga a conta do ajuste.
Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.
Leia o factual: Orçamento 2027 congela valor do Bolsa Família em R$ 600
Fonte: Agência Brasil