A matemática de Alckmin para a chapa de Haddad
Análise · Luciano Aragão Geraldo Alckmin, vice-presidente da República, respondeu com um sorriso tímido e um aceno de cabeça quando perguntado…
Análise · Luciano Aragão
Geraldo Alckmin, vice-presidente da República, respondeu com um sorriso tímido e um aceno de cabeça quando perguntado se rodaria o interior de São Paulo com a chapa de seu partido. A cena, na convenção estadual do Partido Socialista Brasileiro (PSB) na noite de sexta-feira, durou segundos. Resume, contudo, o principal ativo e o maior dilema da aliança que tentará devolver o Palácio dos Bandeirantes ao Partido dos Trabalhadores.
O evento na Assembleia Legislativa paulista oficializou o que o poder já negociava há meses. Márcio França, ex-ministro de Portos e Aeroportos, será o vice na chapa encabeçada por Fernando Haddad (PT). A ex-ministra do Planejamento Simone Tebet concorrerá a uma das duas vagas ao Senado, com apoio declarado à candidatura de Marina Silva (Rede) para a outra. Uma arquitetura de frente ampla, com ex-adversários de diferentes matizes sob o mesmo teto, para enfrentar a máquina do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).
A presença de Alckmin, filiado ao PSB e quatro vezes governador do estado, foi o centro gravitacional dos discursos e das conversas de corredor. Haddad o chamou de “parceiro leal”. Tebet desenhou a estratégia eleitoral: dividir o palanque para que cada um converse com seu público. “Essa frente ampla permite que uns falem com evangélicos, outros falem com agronegócio, alguns com agricultura familiar, outros com setor produtivo”, explicou a agora candidata ao Senado.
A divisão de tarefas é pragmática, mas a onipresença de Alckmin no plano revela a dificuldade da equação. França, pragmático, lembrou que o vice-presidente da República tem uma agenda. Sua participação se daria em “horário de almoço, de jantar, se ele tirar férias”. É um reconhecimento tácito de que o nome de Alckmin, sua capilaridade e sua imagem de moderação são indispensáveis para abrir portas que permanecem fechadas a Haddad e ao PT, especialmente longe da capital.
Enquanto Tebet discursava sobre o aumento dos feminicídios no estado e a necessidade de uma política de segurança que proteja mulheres, o arranjo paulista espelhava a lógica que elegeu Luiz Inácio Lula da Silva em 2022: a aposta de que um nome de centro, com trânsito no establishment e no interior, pode neutralizar resistências e garantir os votos que a esquerda, sozinha, não consegue buscar. A dúvida que a convenção não responde é se o eleitorado de São Paulo, em 2026, ainda vê Alckmin como um ativo local ou apenas como o número dois de um governo federal.
Luciano Aragão — Brasília. Xaplin.
Leia o factual: PSB confirma França como vice de Haddad e lança Tebet ao Senado
Fontes: g1 · CNN Brasil