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Mamografia: protocolo etário e desafios de acesso dividem especialistas

Avanço da ciência na detecção precoce do câncer de mama acende debate sobre idade ideal para o exame.

Mamografia: protocolo etário e desafios de acesso dividem especialistas
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Dra. Camila Torres

O Outubro Rosa, mês de conscientização sobre o câncer de mama, costuma chegar com uma paleta de cores previsível: o laço, a iluminação de monumentos, o discurso sobre a importância do autoexame. Neste ano, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) antecipou o calendário com uma decisão que, na superfície, parece apenas técnica: a partir de 1º de outubro, planos de saúde devem cobrir a mamografia digital para todas as pessoas, sem restrição de idade, desde que haja indicação médica.

Até agora, a cobertura era obrigatória apenas para mulheres entre 40 e 69 anos. A mudança corrige uma distorção. A antiga regra criava uma barreira burocrática que ignorava a biologia do câncer, uma doença que não consulta a data de nascimento para se instalar. A própria comissão da ANS que revisou o procedimento reconheceu que a restrição poderia “prejudicar ou atrasar o acesso oportuno” ao diagnóstico.

Fim da barreira, problema resolvido? A realidade da saúde, pública ou suplementar, é mais complexa. A remoção de um obstáculo formal não garante, por si só, um caminho livre. A nova regra amplia o direito, mas silencia sobre a capacidade da rede em absorver a demanda que pode surgir. Um médico de família no SUS, como fui por uma década, aprende que a distância entre a diretriz no papel e o exame na mão do paciente é medida em meses de espera, agendas lotadas e equipamentos sobrecarregados.

A decisão da ANS é um avanço clínico inegável. A mamografia digital, com menor radiação e imagens mais fáceis de armazenar e compartilhar, já é o “padrão de cuidado oncológico”, como afirma a agência. Manter uma tecnologia superior restrita a uma faixa etária específica era defender o anacronismo. A inclusão de “todas as pessoas”, contemplando a diversidade de gênero, também alinha a norma à medicina do século 21.

Ainda assim, esta é uma leitura parcial do cenário, focada na letra da lei. O verdadeiro impacto da medida dependerá da capacidade de fiscalização da ANS e, principalmente, da resposta das operadoras. O acesso ampliado pode significar um aumento no custo das mensalidades, um repasse que recai sobre o mesmo paciente que se busca proteger. A mudança é necessária e bem-vinda, mas remove apenas o primeiro portão de uma longa estrada.

Para os 73.610 novos casos de câncer de mama estimados por ano pelo Inca, a diferença entre um diagnóstico precoce e um tardio é a fronteira entre um tratamento menos invasivo e uma batalha muito mais dura. O que acontece depois que a caneta assina a nova regra?

Dra. Camila Torres — Saúde — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Plano de saúde cobrirá mamografia digital sem limite de idade

Fonte: Agência Brasil

Este conteúdo não substitui orientação médica individual. Em caso de dúvida, procure um serviço de saúde.