A longa estrada para lugar nenhum
Análise · Marcos Tibúrcio A noite, em Guadalajara, começou com uma promessa.
Análise · Marcos Tibúrcio
A noite, em Guadalajara, começou com uma promessa. Uma daquelas que se fazem no silêncio do vestiário e se gritam nos primeiros minutos de quadra. Vinte e três a dezesseis. Para o Brasil. O placar, frio, não conta o calor daquele instante: a bola que caía limpa, a defesa que se impunha, o barulho do ginásio mexicano que, por um momento, parecia apenas um zumbido distante.
O basquete, porém, tem a crueldade dos esportes que se decidem no tempo. Não basta ser bom por dez minutos. É preciso ser por quarenta. E na virada do relógio, a promessa virou pó. O que se viu depois não foi um jogo, foi um desmanche. O Brasil que voltou para o segundo período era outro, uma equipe que parecia ter esquecido o caminho da cesta. A bola, antes amiga, tornou-se um peso de chumbo nas mãos. Os passes não encontravam destino. Os arremessos, curtos, batiam no aro com um som seco, o som da derrota se anunciando.
Do outro lado, uma jogadora chamada Anisa Jeffries decidiu que aquela noite lhe pertencia. Fez 24 pontos. Não são apenas números. São 24 punhais cravados na esperança de uma equipe, de um país. Cada cesta dela era um grito a mais da arquibancada local e um silêncio mais profundo no banco brasileiro. A virada, que se consolidou antes do intervalo, nunca mais esteve em perigo. O placar final — 83 a 64 — foi apenas a formalidade de um adeus que já havia sido decretado muito antes.
Dizer que ainda há uma chance, uma porta entreaberta na Copa América de 2027, é a matemática tentando consolar o drama. É verdade. O quadro não é definitivo, e o esporte vive de segundas oportunidades. Mas o que se perdeu em Guadalajara foi mais do que uma vaga. Perdeu-se a convicção. Aquele time que abriu sete pontos de vantagem no território inimigo se desfez em quadra, consumido pela própria fragilidade e pela força de um adversário que cresceu com o cheiro de sangue.
O caminho para Los Angeles ficou mais longo, mais íngreme, quase um desvio para o deserto. Resta saber se o que se quebrou no México foi apenas um resultado ou se foi algo mais fundo, algo que nem o tempo, nem a matemática, conseguem consertar.
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge