A juventude que vence sem pedir licença
Análise · Marcos Tibúrcio Há um silêncio particular no instante que antecede o ippon.
Análise · Marcos Tibúrcio
Há um silêncio particular no instante que antecede o ippon. Um milésimo de segundo em que o ginásio inteiro prende o fôlego, à espera do baque surdo de um corpo contra o tatame. Em Lima, na última sexta-feira, esse silêncio se fez duas vezes para o Brasil, seguido não do lamento da derrota, mas do grito contido de quem começa a escrever a própria história.
O primeiro grito foi de Michel Augusto. Na final dos 60 quilos, ele olhou para o americano Jonathan Yang e viu um fantasma. Já havia perdido para aquele homem, e a memória da derrota pesa mais que qualquer quimono. Mas a grandeza de um atleta não se mede nas vitórias fáceis, e sim na capacidade de reescrever os próprios fracassos. Michel foi ao tatame não para lutar, mas para acertar uma conta. E acertou. O ouro no Peru foi seu primeiro em um Grand Prix. Ao final, disse que a vitória tinha “um gosto muito bom”. É o gosto da revanche servida fria, em solo estrangeiro.
Depois veio Rafaela Rodrigues, dezenove anos. Uma menina na sua primeira competição internacional sênior. O roteiro pedia nervosismo, o acanhamento da estreante. Ela, porém, confessou uma calma que nem ela mesma entendeu. Enfrentou Francine Echevarria, de Porto Rico, e começou perdendo. A arquibancada, que sempre pressente o drama, deve ter se ajeitado na cadeira. A virada, com o ippon que encerrou a luta, não foi só uma manobra técnica; foi um ato de insubordinação. Um recado de que a juventude não espera a vez, ela a toma.
Enquanto as luzes da Copa do Mundo nos cegam com seus heróis de milhões, outros pódios estão sendo erguidos longe dos holofotes, com uma matéria-prima mais rara: a surpresa. Michel, Rafaela e Jéssica Lima, que trouxe um bronze nos 57 quilos, não pediram permissão para colocar o Brasil no topo do quadro de medalhas.
Rafaela, com a medalha de ouro no peito, já fala no Mundial Junior. Ela sabe que aquele tatame em Lima não é o destino final. É só a primeira estação.
E para nós, que vivemos de contar histórias de gente que vence e que perde, fica a pergunta: quantos outros Michels e Rafaelas estão agora, neste exato momento, treinando em silêncio, à espera do seu próprio ippon?
Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.
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Fonte: ge