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A inflação na meta. E o que a comida esconde

Análise · Ricardo Mendes O número é bom, mas não basta. O IPCA de julho marcou 0,07%, trazendo o acumulado em 12 meses para 4,44%.

A inflação na meta. E o que a comida esconde
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Ricardo Mendes

O número é bom, mas não basta. O IPCA de julho marcou 0,07%, trazendo o acumulado em 12 meses para 4,44%. Pela primeira vez desde abril, a inflação retorna ao intervalo da meta estipulada, cujo teto é 4,5%. Foi o menor resultado para um mês de julho desde a deflação de 2022. Fim da história? Longe disso. A fotografia de um mês raramente descreve o filme da economia.

A composição do índice exige atenção. O grupo de maior peso na cesta de consumo das famílias, Alimentação e bebidas, registrou deflação de 0,67%. É o segundo recuo mensal consecutivo. A queda foi puxada por alimentos no domicílio (-1,14%), com destaque para o subgrupo de tubérculos, raízes e legumes, que desabou 16,15%. O café, em 12 meses, acumula a maior queda desde o início do Plano Real. São itens de alta volatilidade, sensíveis a safras e condições climáticas. Depender de sua queda para conter a inflação é depender da sorte.

O sinal de ruído

Mais relevante que o número cheio é o índice de difusão. Em julho, ele ficou em 50%. Tradução: metade dos 377 produtos e serviços pesquisados pelo IBGE apresentou aumento de preços. Uma inflação concentrada na queda de poucos itens não é, por definição, uma inflação sob controle sistêmico. O trabalho do Banco Central não se move por um indicador de batata, mas pela persistência e pela abrangência das altas de preço — sobretudo em serviços, que são mais rígidos e refletem a dinâmica de salários e da demanda agregada.

A política monetária, por sua natureza, opera com defasagens e mira o horizonte, não o retrovisor. O mercado, segundo o boletim Focus, projeta um IPCA de 5,02% para o fim de 2026. A projeção não é um prognóstico cravado em pedra, mas um termômetro das expectativas. E elas indicam que a batalha está longe do fim.

O alívio no bolso do consumidor é real e bem-vindo. Mas a estabilização da moeda — obra civilizatória que este país duramente construiu — é um trabalho contínuo, avesso a comemorações precipitadas. A inflação voltou para a meta. A pergunta que importa é se ela veio para ficar.

Ricardo Mendes — Economia — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Inflação recua para 0,07% em julho e entra na meta do governo

Fontes: Agência Brasil · UOL