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A guerra dos metais no ginásio de São Paulo

Análise · Marcos Tibúrcio A cadeira de rodas não é um acessório. É arma. É escudo.

A guerra dos metais no ginásio de São Paulo
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Marcos Tibúrcio

A cadeira de rodas não é um acessório. É arma. É escudo. Na noite de terça, no Centro de Treinamento Paralímpico, em São Paulo, ela foi a extensão do corpo de homens que transformaram um ginásio em campo de batalha. O placar, frio, dirá 49 a 48 para o Brasil sobre o Canadá. Um ponto. A diferença entre o céu e o inferno, decidida no último rangido de metal contra metal.

Quem olha de fora vê a estratégia, o passe, a chegada ao try. Quem estava lá dentro, ouviu outra coisa. Ouviu a provocação, a palavra dura, o insulto que é combustível. Julio Cesar Braz, o camisa 11, eleito o melhor em quadra, confessou ao final: “É muita provocação”. E depois, a benção: “Tem que acontecer mesmo”.

O rúgbi em cadeira de rodas tem essa honestidade brutal. Não há eufemismos para a colisão. Não há desculpas para a fraqueza. Durante dois quartos, os canadenses, inventores modernos da modalidade, pareciam donos da quadra e da razão. Abriram cinco tries de vantagem. Uma eternidade. No silêncio tenso que se instalou por um instante na arquibancada, sentia-se o peso da estreia, a derrota por dois pontos para a Holanda, um fantasma voltando para assombrar.

Fora de quadra todo mundo é amigo.

Mas dentro, não. Ali, o amigo é o companheiro que bloqueia um caminho, que abre um corredor. O Brasil, treinado por um canadense, Benoit Labrecque, precisou encontrar em si a fúria para buscar uma virada que parecia improvável. Foi um trabalho de demolição. Ponto a ponto. Choque a choque. A vantagem escorrendo entre os dedos dos visitantes até o placar se inverter de forma definitiva.

Esta é a quarta vitória brasileira nos últimos cinco encontros com o Canadá. Há uma paternidade se desenhando ali, forjada no atrito, no limite da força. O triunfo mantém o time vivo. Mas a tabela à frente é um paredão: Austrália, Estados Unidos. Potências. O caminho para a glória exige mais do que a técnica. Exige a alma que se viu em quadra.

Quando o cronômetro zerou, os mesmos homens que se ofendiam se abraçaram. A guerra acaba no apito. Fica a pergunta: de onde vem a força para ir à batalha sabendo que a próxima, em poucas horas, será ainda mais dura?

Marcos Tibúrcio — Esporte — chefia. Xaplin.

Leia o factual: Brasil vence Canadá por 49 a 48 no Mundial de rúgbi em cadeira

Fonte: ge