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Bolsonaro e Lula iniciam guerra retórica por votos

No segundo turno, os candidatos Bolsonaro e Lula investem em discursos acalorados para atrair eleitores e influenciar o debate público.

Bolsonaro e Lula iniciam guerra retórica por votos
Capa tipográfica · Xaplin

Análise · Clara Verdi

A palavra precede a bomba. Às vezes a substitui. Donald Trump, da sua Casa Branca que por quatro anos tem sido mais palco que gabinete, anuncia "fortes ataques" contra o Irã e, quase no mesmo fôlego, declara que os iranianos "querem muito" um acordo. É a diplomacia do megafone, um teatro de ameaças e convites em que a performance ofusca a política.

O roteiro é conhecido, quase um clássico do repertório de Trump. Primeiro, a escalada verbal que beira o infantil: o Irã "está morto", é um "país falido". Depois, a exibição de uma força que ainda não se materializou, como o vídeo gerado por inteligência artificial mostrando a destruição da ilha de Kharg — a violência como simulação, um espetáculo para as redes sociais. Por fim, a porta entreaberta, o aceno de que a negociação é desejada pelo inimigo humilhado. Tudo isso enquanto as sanções, estas sim bem reais, sufocam a economia iraniana.

Do outro lado, em Teerã, a resposta vem em dois tons, uma dissonância que pode ser cálculo ou fratura interna. O presidente Masoud Pezeshkian, falando à agência semioficial Tasnim, adota a linguagem da diplomacia clássica: a guerra "não interessa a ninguém", é preciso buscar um "entendimento". Pouco depois, uma autoridade anônima, falando à Reuters, promete uma retaliação "dezenas de vezes maior" a qualquer ataque americano. É a voz do Estado contra a voz da Revolução. Ou talvez sejam apenas duas faces da mesma estratégia de sobrevivência, uma oferecendo o ramo de oliveira enquanto a outra afia a espada.

Enquanto as palavras voam, os fatos no terreno são modestos, quase desproporcionais ao barulho. Ataques americanos a dois lançadores de mísseis na ilha de Larak, uma resposta iraniana contra alvos militares na Jordânia. Ações limitadas, cirúrgicas, que servem mais para alimentar a narrativa de cada lado do que para alterar qualquer equilíbrio de forças. A troca de agressões no Estreito de Ormuz, ponto nevrálgico do petróleo mundial, funciona como um lembrete constante de que a guerra simulada pode se tornar real a qualquer momento, por acidente ou por desespero.

Ainda é cedo para saber se este é o prelúdio de um conflito aberto ou apenas mais um capítulo da longa guerra de nervos. A contradição entre a retórica incendiária de Trump e seu conhecido instinto de evitar novos pântanos militares no Oriente Médio segue sendo a principal variável. O que resta, por ora, é a imagem de dois governos falando para suas próprias plateias, usando o inimigo externo para consolidar o poder interno. Em Washington, a performance de um homem forte; em Teerã, a de uma nação que não se curva. E no meio, persas e americanos assistem, sem saber se o próximo ato será no Twitter ou no campo de batalha.

Clara Verdi — Europa. Xaplin.

Leia o factual: Trump promete "fortes ataques" ao Irã após troca de agressões

Fontes: g1 · UOL